Tese de Mestrado em Gestão Empresarial – 4

A VEZ E A LÓGICA DO DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL NO MUNICÍPIO DE  FRANCA-SP  E REGIÃO : A INTEGRAÇÃO  SÓCIO-AMBIENTAL NA MICROECONOMIA DO BAIRRO ATRAVÉS DE INCUBADORA DE EMPRESAS COMUNITÁRIAS  E TECNOLÓGICAS

WAGNER DEOCLECIANO RIBEIRO

2 – A INTERDISCIPLINARIDADE COMO FORMA DE  RECOMPOR O NOVO MODELO DE ORGANIZAÇÃO QUE PRIVILEGIE A UNIDADE E A  ORGANICIDADE DO SABER:

Além de ser  um empreendimento de ordem filosófica, científica e educativa, a busca da interdisciplinaridade corresponde a um desafio, por se constituir num ato político de extrema relevância para a consecução do atual projeto de formação profissional tanto do assistente social, do administrador de empresas bem como da formação do cidadão participante.

Para que isto não aconteça, somos impulsionados em direção à interdisciplinaridade como proposta alternativa pelo fato de reconhecermos a falência do modelo de organização curricular por matérias isoladas, que leva à falência da objetividade dos valores sociais,  pautada na racionalidade científica de cunho neopositivista.

Mas, como coloca KANAANE[1], se for adotada como premissa a alternância de posições entre líderes e liderados, têm-se como   múltiplas perspectivas que  retratarão condições facilitadoras para a definição do ambiente organizacional.

Na medida em que o indivíduo, continua ele, visualiza perspectivas diferenciadas no ambiente de trabalho, inclusive aquelas relacionadas à dinâmica do poder e autoridade, há claros indícios de que um clima favorável surja no quotidiano das relações socioprofissionais afetando suas representações sociais sobre o trabalho, ou seja, abrindo um campo de possibilidades e alternativas de ações comprometidas com a dinâmica capital e trabalho.

O grau de desafio que se apresenta, ainda na visão de Kanaane, diz respeito à capacidade de atuação no âmbito das organizações para se entender a dinâmica e o processo inerentes a estas situações e o fortalecimento dos indivíduos e grupos no  sentido de dotá-los de capacidade profissional e social, facilitando o surgimento do “cidadão pensante”.

As teorias em administração, assim como os  pressupostos econômicos e filosóficos sobre o trabalho, sofrem modificações aceleradas decorrentes de mudanças globais que caracterizam este final de século.

A interdependência entre os indivíduos aliada à visão sistêmica quanto do incremento à informatização dos sistemas administrativos direciona o comportamento dos membros da organização para  ações sinérgicas e pós ativas, o que tende a  gerar possibilidades de troca de  informações entre os respectivos membros e o desenvolvimento da  percepção interpessoal. Estas ações em muito facilitarão a compreensão holística da realidade, ou melhor, facilitarão a visão integrada e interdependente entre os vários subsistemas que compõem a organização e as possíveis trocas com o ambiente.

Para SEVERINO[2], o positivismo torna-se, no limiar da contemporâneidade,

o maior responsável pela fragmentação do saber e o maior obstáculo à própria interdisciplinaridade. Urge,  pois, a  substituição de uma ciência fragmentada por uma unificada, já que esta concepção fragmentária da ciência, arrasta consigo uma correspondente divisão social do trabalho, diluído no Taylorismo da ação técnico-profissional com  graves conseqüências na estrutura da sociedade e na alocação do poder político entre as classes sociais. Além de base epistemológica do desenvolvimento científico e técnico, continua SEVERINO, o Positivismo passou a ser também o sustentáculo ideológico, extremamente comitente e renitente, do  sistema de poder social e político reinante nas sociedades modernas, sistema de poder este que se tem manifestado de modo fundamental como sistema de opressão, pelo que contradiz radicalmente as intenções declaradas do projeto iluminista de fazer da ciência um instrumento de libertação dos homens. E conclui o autor que a questão da interdisciplinaridade se aguça no campo das  ciências humanas,  em que  o positivismo, para além do mérito de ter ousado tomar o homem como objeto da abordagem científica, pouco pode avançar no conhecimento do  mesmo.

O homem é uma unidade que só pode ser apreendida numa abordagem sintetizadora e nunca mediante uma acumulação de visões parciais. De nada adianta proceder na decomposição, análise e recomposição de aspectos: esta soma não dará a totalidade humana.

É preciso, pois, no âmbito dos esforços com vistas ao conhecimento da realidade humana, praticar intencional e sistematicamente uma dialética entre as relações das partes e o todo, pois o conhecimento das partes fornecendo elementos para a construção de um sentido total, enquanto o conhecimento da totalidade elucidará o próprio sentido que as  partes,   autonomamente,  poderiam ter.

Isto nos chama a atenção,  na  observação de Severino, para uma série  de conseqüências, que dizem  respeito à interdisciplinaridade, relativas a nossa atuação nos vários campos ligados ao Saber. Para se constituir, finaliza ele, a perspectiva interdisciplinar não opera uma  eliminação das diferenças: tanto quanto na vida em geral, reconhece as  diferenças e as especificidades, convive com elas, sabendo contudo que elas se reencontram e se complementam, contraditória e dialeticamente. O que de fato está em questão na postura de interdisciplinaridade, fundando-a, é  o pressuposto epistemológico, de acordo com o qual a verdade se completa; não ocorre uma Ciência isolada, mas ela só se constitui num processo de concorrência  solidária de várias disciplinas.

Além disso, completa, a interdisciplinaridade implica, no plano prático-operacional, que se estabeleçam mecanismos e estratégias de efetivação desse diálogo solidário no trabalho científico, tanto na prática da pesquisa como naquela do ensino e da prestação de serviços.

 Finalmente, para SEVERINO[3], a atitude interdisciplinar exige ainda a  superação da preconceituosa afirmação  de incompatibilidade entre a Ciência e a  Filosofia. O Saber humano vive hoje uma grande época tanto para a  Ciência como para a Filosofia, que  parecem ter encontrado o segredo de uma coexistência pacífica.

Hoje as ciências dedicam-se, com a abrangência que  seu método lhes permite, ao desvendamento de todas as relações que tecem a realidade fenomenal, enquanto a Filosofia se expande em todas as direções, com toda a liberdade de investigação que a razão natural lhe assegura, procurando constituir o sentido, a significação dessa realidade. Enfim, consagra-se o reconhecimento da multiplicidade dos olhares do espírito sobre uma realidade multi-forme. Todavia, ao mesmo tempo, consolida-se a convicção de que  essa multiplicidade constitui uma rede única a testemunhar que, na origem de fundo, está  um espírito único a olhar para um único mundo, conclui Severino.

A década de 90 inicia-se após a quebra do muro de Berlim como marco decisivo para o início da Globalização. Este rompimento dos paradigmas ideológicos no campo político, onde a dicotomia entre países capitalistas e  socialistas passa a não mais  existir, deixando um vácuo de expectativas sem precedentes, resultará numa modificação radical no gerenciamento e no modo de gestão, não somente  empresarial, mas também modificará profundamente até nas relações humanas, entre homem e mulher, entre capital e trabalho, entre  consumo e produção, entre vida e morte…

Os desafios gerenciais postos a partir de então, formados da necessidade de estabilidade das relações entre capital e trabalho passam a influenciar todas as empresas, em todos seus níveis, desde família/empresa até as multinacionais, desde o microempresário até os administradores das bolsas de valores.

O pano de fundo: uma nova onda liberal que insista em confirmar a hipótese do capital  em detrimento do trabalho, mas o que surge de fato, é uma  realidade dura de diferenças sociais e defasagens culturais,  onde o homem perde sua referência do valor centrado no próprio homem para reforçar a hipótese contrária ao liberalismo de que “juro gera juro e não gera mercadoria”, portanto, o mundo empobrece no seu global, enquanto as  disputas filosóficas e ideológicas vazam o século XX.

Como iniciar a gestão de um novo mundo econômico dentro desta tempestade caótica do fluxo de valores especulativos que ameaçam nações e países num mundo aparentemente bestificado pelos gênios do capitalismo selvagem?

Serão estes gênios do BEM que aplicarão uma fórmula mágica para organizar esta falta de referência ética entre as nações? O Humanismo bate às portas do século XXI, socializando, na Internet, as relações históricas que não pudemos perpetuar, até então, de forma concreta! Fazemos trocas de tudo: de endereços, de afetos, de valores culturais, de bilhetes de amor  e desavenças filosóficas e ideológicas, até de capital!

O Homem se encontra com a mulher e com o afeto que mais  se afine, o consumo se encontra com a produção sem intermediários, o capital financia o trabalho na Internet, e a vida não mais luta contra a morte, mas administra os recursos para um desenvolvimento sustentável que perpetue os valores humanos às próximas gerações.

E o que nos resta de pano de fundo, no fundo do poço das ideologias? Talvez o encontro da  verdade dos efetivos valores desta humanidade: Planejamento estratégico em consonância à qualidade total. Isto é globalizar com AMOR, é integrar capital intelectual ao capital cultural numa economia mais dinâmica, a economia do espírito humano.

A integração interdisciplinar nos desloca a uma ascensão ao pensamento sistêmico e nos faz situar num universo transdiciplinar totalmente  inédito, que será base histórica para as novas organizações. Na ciência do século XXI, a perspectiva holística tornou-se conhecida como “sistêmica” ou “ecológica” como denomina Capra[4] , que rompe todos os paradigmas  postos, e, nos coloca, na globalidade do pensamento integral, onde sentimento e razão coexistem e se integram numa nova lógica de compreensão da realidade: a Natureza pede socorro à economia a todo custo, para que repense a sustentabilidade da vida no planeta.

Reconectar-se com a teia da vida para CAPRA[5], significa construir, nutrir e educar  comunidades sustentáveis, nas quais podemos satisfazer nossas aspirações e nossas

necessidades sem diminuir as chances das gerações futuras.”

Para isto, urge na concepção de CAPRA, uma eco-alfabetização da própria humanidade respaldada, uma modificação no padrão de consumo e na lógica de se operacionalizar novas organizações empresariais que atuem economicamente como no dizer de STEINER[6], significa levar produtos para a troca entre as pessoas, e essa se manifesta  na formação de preços. Tal formação de preços é o que importa, em primeiro lugar, regressivamente à relação de valores, criada para a lavoura pela proporção  entre número de habitantes e a área cultivável.

Em  tal relação se expressa,  ainda na concepção de STEINER, o que originalmente  subjaz  à formação de  preços, pois todo trabalho possível de ser executado só pode partir do número de habitantes, e tudo o que esse trabalho possa ligar-se deve provir da terra; eis o que  todos necessitam. Conclui ele, então que, em nossa economia moderna, bem complexa, ainda se insere algo daquelas condições econômicas primitivas em que se tratava essencialmente, por assim dizer, da  primitiva troca de mercadorias. Ocorre, porém, que não estamos mais em condições de perceber essa relação em toda parte. Urge desenvolvermos esta percepção através de uma reintegração de valores que retome a sociedade não dividida, a sociedade de homens livres.

E ainda STEINER[7] afirma que dentro de uma comunidade humana, o homem só é  considerado espírito livre na medida em que se  tenha  emancipado de todo o  genérico da forma indicada. Ninguém é completamente gênero, como tampouco ninguém é  completamente individualidade, mas todo homem emancipa paulatinamente uma parcela maior ou menor de seu ser, tanto do genérico da vida animal como das leis de autoridades humanas que o dominam.”

No tocante  àquela parte do seu ser para a qual não se pode conquistar essa liberdade completa, STEINER[8]diz que o homem constitui um membro dentro do organismo da natureza e do espírito. Vive, neste sentido, imitando os demais, ou, como estes, somente aquela parte de sua conduta que procede de suas  intuições. E os instintos morais que  possuir, por haver herdado instintos sociais, adquirem um valor ético pelo fato de ele  os acolher em suas instituições.

Toda atividade imoral da humanidade procede de instituições éticas individuais, e de sua aceitação em comunidades humanas. Em outras palavras, conclui STEINER[9] , a vida moral da humanidade é a soma total dos produtos da fantasia moral dos indivíduos humanos livres. Este é o resultado do monismo” ou da unidade do pensamento que as próprias condições da unidade da vida do espírito impõe: uma mutação humana profunda no dizer de BACHELARD[10] .

Esta seria pois, a economia do espírito, uma integração do capital intelectual ao capital cultural aproveitando a  recomposição do saber pela gestão empresarial participativa,  recompondo a fragmentação da ciência que  exauriu seu último suspiro na colcha de  retalhos da multidisciplinaridade, numa nova lógica de desenvolvimento – o desenvolvimento sustentável.

Nossa proposta, para este trabalho, é partir de uma avaliação crítica do desenvolvimento econômico que a todo custo  gerenciou essa economia de subsistência de um Estado Moderno ausente, cuja conseqüência foi a dicotomização do mundo globalizado em paradigmas capitalismo\ socialismo; países ricos\ países pobres; mundo natural\ mundoartificial, Homem\ Terra; e, a partir daí, desenvolver uma proposta de desenvolvimento sustentável para o município de Franca-SP, que a partir da integração sócio-ambiental, desenvolva a lógica do desenvolvimento sustentável que rompa com o paradigma macro-econômico. Os novos paradigmas devem ser alicerçados num modelo prático de microeconomia de bairro, através de incubadoras de empresas comunitárias e tecnológicas que possam minimizar as diferenças sociais pela mútua cooperação numa sociedade de Boa Vontade.

3. OS MARCOS  TEÓRICOS DA SUSTENTABILIDADE:

Durante  os  anos   70   e   80,  a   estratégia  de  desenvolvimento  global  mais

conhecida como Eco-Desenvolvimento e Desenvolvimento Sustentado, conceitos que são utilizados para expressar a preocupação de garantir as necessidades atuais sem comprometer a vida das gerações futuras. Seria, pois, em última análise, que a causa da crise ambiental está vinculada à dinâmica do capitalismo,  cuja apropriação da natureza tem como objetivo o aumento da produtividade através de diferentes fórmulas de artificialização.

A “definição oficial” de desenvolvimento sustentado, ou seja, aquela que parte dos organismos internacionais como a FAO (ONU), está inserida em uma profunda controvérsia de caráter multidisciplinar e de perspectivas teóricas distintas: o pensamento liberal e o pensamento alternativo[11]. Nesse contexto histórico e intelectual surgem os primeiros marcos teóricos do desenvolvimento econômico rural, precursor do desenvolvimento sustentável. Paralelamente, no início do século XX, surgem as teorias da vida rural americana e o neopopulismo e marxismo heterodoxo. Nessas perspectivas, encontramos políticas e ações que podem ser consideradas precedentes do desenvolvimento rural sustentável: o desenvolvimento comunitário e o movimento dos intelectuais para desenvolver uma prática junto ao povo. O desenvolvimento sustentável é gerado entre a segunda metade do século XIX e o período entre as I e II Guerras Mundiais, já no século XX, quando se produz a hegemonia da orientação teórica liberal da modernização agrária, a extensão da agricultura industrializada e a emergência da Revolução Verde.

Por sua vez, a emergência teórica do “desenvolvimento sustentável oficial” inicia-se na década de 70, quando a pressão ambientalista passa a ter um peso considerável nos países capitalistas centrais. É, nesse contexto, de explosão ecológica, que surge a Conferência sobre o Meio Ambiente Humano organizada em Estocolmo pelas Nações Unidas em 1972. Nessa Conferência estabelecem-se os princípios norteadores do desenvolvimento sustentável, reconhecendo que o subdesenvolvimento é a origem da degradação ambiental.

3.1 Desenvolvimento Político Economico e o Conceito de Planejamento

As primeiras discussões teóricas sobre planejamento como instrumento de política econômica datam da década de vinte, sendo que o único país a usar o planejamento de maneira sistemática antes da guerra, foi a União Soviética, adotando o primeiro plano quinquenal em 1929. Tratava-se, de saber, se num país, com decisões econômicas centralizadas, mas em que os indivíduos tivessem livre escolha de consumo e ocupação, seria possível alocar os recursos com a máxima eficiência. Nessas condições, os preços dos bens finais indicariam as preferências dos consumidores; isto é, dada uma distribuição de renda, mostrariam qual a estrutura da demanda final. O problema estava em saber como atribuir preços aos fatores de produção de modo a usá-los com o mínimo desperdício. Como os empresários procuram maximizar o lucro e competem entre si, o preço do produto acaba por igualar-se ao custo de produção e a alocação de recursos será racional: obtém-se a produção de bens finais com o menor uso possível de recursos. Embora, Barone[12] tivesse já mostrado, no início do século, que a Comissão Central de Planejamento pode calcular a alocação racional de recursos, economistas como L. VON MISES[13] procuraram mostrar que o cálculo econômico é impossível numa economia socialista. Outros, como HAYEK[14], julgavam que  teóricamente seria possível a alocação racional, mas impraticável na realidade, pois a Comissão Central teria que resolver uma infinidade de equações que igualassem a procura à oferta de bens – justamente as equacões solucionadas automaticamente pelo mercado numa economia competitiva. A resposta, dada por TAYLOR[15], veio mostrar que o problema é mais simples do que parecia à primeira vista. Assim, a determinação dos preços seria semelhante nas economias  socialista e competitiva. A Comissão Central desempenharia as funções de mercado sem que fosse necessário resolver as múltiplas equações de demanda e de oferta de todos os bens.

3.2 – A Economia Política do Desenvolvimento  Sustentável

O instrumental conceitual e metodológico da teoria econômica é insuficiente  na abordagem dos problemas do meio ambiente. Porém, observa-se uma tentativa de aproximação entre a economia, a sociedade e a natureza[16] que pode levar à elaboração de uma economia política do desenvolvimento sustentável.

           Para a construção de uma economia política do desenvolvimento sustentável deve-se partir do reconhecimento de que o atual sistema econômico, baseado no mercado e em uma ineficiente intervenção do Estado, é contraditório com a necessidade de conseguir um equilíbrio entre a produção material e reprodução e conservação dos recursos naturais.  Como disse TRIGO[17]:

                “A situação atual de deteriorização dos recursos não resulta da perversidade de setores individuais da sociedade, e sim do fracasso do mercado em fornecer os índices adequados  para o acionamento correto dos agentes econômicos e da ineficiência do Estado em programar e implementar intervenções que corrijam a situação.”

                A economia de mercado, ao tratar os serviços (fluxos) do capital ecológico como bens livres, está incentivando sua exploração indiscriminada. Os princípios da economia clássica supõem uma disponibilidade ilimitada de recursos naturais em um contexto no qual só os bens escassos têm valor  (preços); portanto, as regras institucionais das economias capitalistas se ocuparam com pouco empenho do estabelecimento de critérios e mecanismos para corrigir essa situação.

Isso nos indica a limitação do mercado como mecanismo regulador do manejo dos recursos naturais. Igualmente a intervenção do Estado não tem significado uma alternativa eficaz na proteção do meio ambiente e dos recursos naturais. A crise fiscal do Estado faz com que as políticas de recuperação de ecossistemas degradados, transferência de receitas como mecanismos corretores de externalidades, por exemplo, não figurem entre as alternativas a considerar.

Algumas correntes ambientalistas,  não discutindo radicalmente  o mercado como a base do sistema econômico, acreditam que a sustentabilidade possa ser obtida utilizando os mecanismos de mercado. Nessa perspectiva, os desequilíbrios ambientais que ameaçavam a sustentabilidade podem ser reduzidos a um valor monetário (impostos, preços). Assim as alterações quantitativas de preços/custos permitiriam um redirecionamento das atividades[18].

Porém, as ferramentas teórico-metodológicas da Ciência Econômica, sobretudo da microeconomia, são insuficientes na harmonização do desenvolvimento sócio-econômico com a gestão racional dos recursos. O sistema de preços, por exemplo, não é adequado para resolver os problemas de destruição ambiental.  A racionalidade econômica do capitalismo, leva às empresas a internalizar  o lucro e a externalizar os custos. Como calcular por exemplo, o custo de poluição do meio ambiente? Alguns economistas neoclássicos propuseram que o custo de poluição de um lago deve ser equivalente ao custo do transporte da população afetada para o lago não poluído mais próximo. O que indica um forte reducionismo econômico.[19]

Para outros autores, o modelo de desenvolvimento sustentável deverá emergir de uma reorganização radical das relações sociais e da economia baseada no mercado. Nesse sentido, “… a busca de um padrão de desenvolvimento  mais sustentável deve começar por reconhecer que muitos dos problemas surgem de deficiências próprias do conceito primário a partir do qual se organiza esse tipo de economia.” [20]

Outras interpretações consideram que a destruição sistemática dos recursos naturais não é simplesmente um efeito indesejado das estruturas de organização social vigentes,  mas uma conseqüência inevitável de  comportamentos racionais dentro do atual modelo de desenvolvimento. Disto se deriva que para um desenvolvimento sustentável são necessárias profundas mudanças e inovações nas estruturas políticas, econômicas e sociais.  A racionalidade do modelo dominante, associa o nível de bem-estar à disponibilidade de bens físicos; por isto, é, que são tomados o produto interno bruto per capita e sua taxa de crescimento como indicadores do esforço das sociedades por satisfazerem as necessidades dos seus membros.

Apesar da importância da disponibilidade de bens físicos para o bem estar material da população, existem outros elementos como a disponibilidade de recursos ambientais no sentido amplo, tais como: espaço, energia, recursos naturais (paisagens, água, ar puro, espécies animais e vegetais), disponibilidade de tempo livre, distribuição de renda mediante outras formas de acesso aos bens, disponibilidade de emprego e um nível mínimo de segurança com relação ao futuro, sendo este um fator essencial para determinar nosso comportamento com relação aos bens escassos. É preciso encontrar um novo padrão que substitua o critério de crescimento do PIB como base única  para a análise das políticas[21].  Trata-se de mudar qualitativa e quantativamente o modelo vigente, tendo como objetivo central o  melhoramento da qualidade de vida, mas nem sempre o crescimento produtivo.

A transição para o modelo de desenvolvimento sustentável pressupõe repensar o significado do conceito de natureza dentro dos paradigmas teóricos das Ciências Sociais. Para os economistas, a natureza, além de ser considerada infinita,  carece de valor de mercado porque não é produto do trabalho humano. Este é um ponto comum entre os economistas clássicos e marxistas. A natureza segundo MARX deve ser dominada, transformada e colocada ao serviço das necessidades humanas. A Ciência econômica tem se negado a reconhecer os limites naturais e abordar sua relação com a natureza a partir de uma perspectiva diferente. KAUSKY[22] , conclui que  “…os meios de produção criados pelo trabalho humano se desgastam (física e moralmente); moralmente se desgastam por novas descobertas e cedo ou tarde deixam de existir. Precisam ser constantemente renovados. O solo, ao contrário, é indestrutível e eterno – ao menos em relação à sociedade humana”.

3.3 –  Qualidade de Vida e Riscos Ambientais:

Os    estudos  sobre  motivação   têm  assinalado  a   importância   dos  aspectos

ambientais, ergonômicos e de expectativas  diante do trabalho como representantes da qualidade de vida  experienciada pelo trabalhador. Neste contexto, as informações trazidas  pela sociologia, antropologia, ciência política e  psicologia social têm contribuído de forma acentuada  para compreensão do fenômeno qualidade de vida.

Segundo HAKNAM e SUTTLE[23], a qualidade de vida refere-se à satisfação das necessidades do indivíduo, afetando atividades pessoais e comportamentais, a criatividade, a vontade de inovar ou aceitar mudanças, a capacidade de adaptar-se às mudanças no ambiente de trabalho e o grau de motivação interna para o trabalho; estes são evidentemente fatores importantes para o alcance da produtividade.

Podemos afirmar, que a qualidade de vida, depende fundamentalmente das características do meio ambiente, onde se dá, e, suas modalidades, podem ser melhor compreendidas enquanto relacionadas com o desenvolvimento, que pouco a pouco passamos a chamar de sustentável (ou durável). Estas duas grandes categorias: a qualidade de vida e o desenvolvimento sustentável têm, indiscutivelmente, sua expressão mais aguda no ambiente urbano. E a partir deste século, com a inversão da população rural e a população urbana, urge reavaliar os riscos que este meio ambiente urbano está sujeito e a sua relação com a qualidade de vida da sua população. “Mas, que gênero de saber, na indagação de GRINOVER[24], de instrumentos, de saber fazer, deveriam ser implantados para assegurar as necessidades básicas – alimentos, habitação, saúde, educação, energia, transporte, comunicação, atividades culturais – sejam atendidos a curto e médio prazo? Seria a qualidade de vida que desejamos, a que os centros urbanos nos oferecem?” E  ainda na observação de DOWBOR[25] “ Quando a administração pública não assegura os serviços, buscam-se soluções individuais que terminam por infernizar a vida de todos”. Coloca-se aí, então, a complexidade da vida urbana e o meio sócio-ambiental urbano passa a ser uma questão cada vez mais preocupante no que se refere ao equilíbrio da balança entre qualidade de vida e riscos ambientais.

3.4 –  Tecnologia e Cidadania:

Na avaliação de JACOBI[26],  “no contexto urbano metropolitano, os problemas ambientais têm se avolumado a passos agigantados e a sua lenta resolução tem se tornado de conhecimento público pela virulência de seus impactos: aumento desmesurado de enchentes, problemas cada vez mais complexos na gestão dos resíduos sólidos e a interferência crescente, do seu despejo  inadequado em áreas potencialmente degradáveis em termos ambientais, e impactos cada vez maiores da poluição do  ar na saúde da população. O que o leva a explicitar o complexo desafio de pensar a sustentabilidade urbana e o impacto das práticas sociais prevalecentes que o coloca numa necessidade de multiplicação de práticas sociais, pautadas pela  ampliação do direito à informação  e de educação ambiental numa perspectiva integradora. Trata-se de potencializar iniciativas a partir da premissa de que maior acesso à informação e transparência na gestão dos problemas ambientais urbanos, podem implicar uma reorganização de poder  e autoridade”.

                Isto, nos leva, à necessidade de pensar uma agenda para a sustentabilidade  ambiental urbana, que deve levar em conta a relevância de estimular a expansão  dos meios de  acesso a uma informação geralmente dispersa e de difícil compreensão, como parte de uma política de fortalecimento do papel dos diversos atores intervenientes que possam contribuir tanto tecnologicamente no diagnóstico dos problemas ambientais, bem como na busca de suas soluções.

                O  momento atual exige que a sociedade esteja mais envolvida, motivada e mobilizada para assumir um papel propositivo, assim como para poder questionar, de forma concreta, a falta de iniciativa dos governos para implantar políticas pautadas pelo binômio sustentabilidade e desenvolvimento, num contexto de crescentes dificuldades  para promover a inclusão social, bem como um desafio de construir coalizões de cidadãos capazes de criar as condições para assegurar uma qualidade de vida aceitável, traduzida na aplicação do conhecimento científico das tecnologias mais recentes ou mesmo em atitudes simples como, por exemplo,  deixar de andar um dia de carro,  por semana, como na operação rodízio, em São Paulo.

Essas reflexões, nos impõem a tarefa de como pensar a construção de uma sociedade da Boa Vontade, que em termos práticos e da realidade regional, possamos viver a lógica do desenvolvimento sustentável em Franca e Região, uma vez , que nosso propósito é o de sugerir elementos para viabilizarem a lógica da produção e desenvolvimento urbano, com qualidade  regional.


[1]27 KANAANE, R.   Comportamento humano nas organizações – O homem rumo ao século XXI, Atlas, São Paulo: 1994

[2]28 SEVERINO, A. J. et all  –Subsídios para uma reflexão sobre novos caminhos da interdisciplinaridade.In Antonio Joaquim SEVERINO et all MARTINS DE SÁ, Jeanete L. Serviço social e interdisciplinaridade  dos fundamentos filosóficos à prática interdisciplinar no ensino, pesquisa e extensão. Cortez, São Paulo:1989.

[3]29 SEVERINO, A. J. et all  –Subsídios para uma reflexão sobre novos caminhos da interdisciplinaridade.In Antonio Joaquim SEVERINO et all MARTINS DE SÁ, Jeanete L. Serviço social e interdisciplinaridade  dos fundamentos filosóficos à prática interdisciplinar no ensino, pesquisa e extensão. Cortez, São Paulo:1989.

[4]30  CAPRA, F. – A teia da vida .  uma nova compreensão científica dos sistemas vivos. – São Paulo:Cultrix, 1996

[5]31 CAPRA, F. – A teia da vida. uma nova compreensão científica dos sistemas vivos. – São Paulo:Cultrix, 1996

[6]32  STEINER, R.  Economia viva – o mundo como organismo econômico único.  São Paulo: Antroposófica  Widar, 1995.

[7]33 STEINER, R.  A filosofia da liberdade. elementos de uma cosmo visão moderna. São Paulo: Antroposófica, 1983.

[8]34 STEINER, R.  Economia viva – o mundo como organismo econômico único.  São Paulo: Antroposófica  Widar, 1995.

[9]35 STEINER, R.  A filosofia da liberdade. elementos de uma cosmo visão moderna. São Paulo: Antroposófica, 1983.

[10]36 BACHELARD apud RIBEIRO, W.D.  A Homeopatia frentre a epistemologia. Franca.  Ribeirão Gráfica, 1997 p. 148.

[11]37 SEVILLA apud  GÓMEZ, W. H. Desenvolvimento sustentável, agricultura e capitalismo. Revista da Educação.  Unicamp, 1996.

[12]38 BARONE, op. cit., pg 10, nota 2.

[13]39 VON MISES, op. cit., p. 10.

[14]40 HAYEK, F.A. op. cit., p. 10.

[15]41 TAYLOR, F. m. op. cit. p. 10.

[16]42 SEKIGUCHI, op. cit., p. 10, nota 1.

[17]43 TRIGO, op. cit., p. 50.

[18]44 WERNER apud GÓMEZ, W. H. Desenvolvimento sustentável, agricultura e capitalismo. Revista da Educação, Unicamp, 1996.

[19]45 SACHS, 1986 apud GÓMEZ, W. H. Desenvolvimento sustentável, agricultura e capitalismo. Revista da Educação, Unicamp, 1996

46 TRIGO et all, apud  GÓMEZ, W. H. Desenvolvimento sustentável, agricultura e capitalismo. Revista da Educação,  Unicamp, 1996

[20]

[21]47 WERNER apud GÓMEZ, W. H. Desenvolvimento sustentável, sgricultura e capitalismo. Revista da Educação,Unicamp, 1996

[22]48 KAUSHY, apud GÓMEZ, W. H. Desenvolvimento sustentável, sgricultura e capitalismo. Revista da Educação,Unicamp, 1996

[23]49 KANAANE, 1977 :  p. 45

[24]50 GRINOVER, Lúcio. A qualidade de vida no espaço urbano.Debates  sócio-ambientais do Centro de Estudos Contemporânea. Ano II, n.4,  jun./jul./ago./set., São Paulo, 1996.

[25]51  DOWBOR, Ladislau. A produção da qualidade de vida nas cidades. Debates  sócio-ambientais do Centro de Estudos Contemporânea. Ano II, n.4,  jun./jul./ago./set., São Paulo, 1996.

52 JACOBI, Pedro Roberto. Riscos ambientais e construção da cidadania. Debates  sócio-ambientais do Centro de Estudos Contemporânea. Ano II, n.4,  jun./jul./ago./set., São Paulo, 1996.

[26]52 JACOBI, Pedro Roberto. Riscos ambientais e construção da cidadania. Debates  sócio-ambientais do Centro de Estudos Contemporânea. Ano II, n.4,  jun./jul./ago./set., São Paulo, 1996.


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