Tese de Mestrado em Gestão Empresarial – 3

A VEZ E A LÓGICA DO DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL NO MUNICÍPIO DE  FRANCA-SP  E REGIÃO : A INTEGRAÇÃO  SÓCIO-AMBIENTAL NA MICROECONOMIA DO BAIRRO ATRAVÉS DE INCUBADORA DE EMPRESAS COMUNITÁRIAS  E TECNOLÓGICAS

WAGNER DEOCLECIANO RIBEIRO

CAPÍTULO I

ELEMENTOS CONSTITUINTES DO REFERENCIAL TEÓRICO

1. A ORIGEM DO ESTADO: A SOCIEDADE DIVIDIDA E  O HOMEM SERVIL:

A objetividade dos valores sociais, iniciada com o surgimento do Contrato Social de  ROSSEAU e consagrada após a Revolução Francesa com a “Declaração Universal dos Direitos do Homem”, corre um sério risco histórico de falência neste final de século.

Romper o paradigma posto entre o humanismo do século XVI e XVII, e o  neoliberalismo do final do século XX, pode ser um bom desafio para quem almeja uma  saída nas portas do século XXI, rumo a uma grande revolução nas organizações e nas  formas de gestões empresariais.

Para isto, necessário se faz uma avaliação mais profunda que integre o  humanismo e o liberalismo, numa nova lógica de relações sociais, que dêem forma às  futuras empresas e suas autogestões. Integrar  sempre valores humanos e naturais em uma filosofia de vida, ou “modus viventi” natural e livre. Segundo,  CLASTRES[1],  ao analisar a pergunta de La Boétie, de “como é possível que a maioria obedeça a um só, que não somente o obedeça mas o sirva, não  somente o sirva, mas queira servi-lo?”;  afirma que ele descobre, ao deslizar para fora da  História, e precisamente, que a sociedade na qual o povo que serve ao  tirano  é histórica, que não é eterna e nem sempre existiu, que possui uma data de nascimento e que algo deva ter necessariamente se passado, para que os homens caiam da liberdade na servidão: “que mau encontro foi em que pôde desnaturar tanto o homem, o único nascido de verdade, para viver francamente, e fazê-lo perder a lembrança  de seu primeiro ser e o desejo de retomá-lo?”

Este mau encontro na análise de CLASTRES, dividiu a sociedade nos que mandam e nos que obedecem, cujo produto final o “homem novo”, esse ser, difícil de nomear, desnaturado, instituiu na sociedade uma tal divisão que dela foi banida a liberdade, no entanto, consubstancial ao ser primeiro do Homem. E, continua ele, que ao perder a liberdade, o homem perde sua humanidade. Ser humano é ser livre; o homem é um ser para a liberdade. Este mau encontro,  realmente,  pode levar o homem a renunciar o seu ser e a lhe fazer desejar a  perpetuação dessa renúncia.

O sinal e a prova dessa perda da liberdade, no dizer de Boétie[2], são constatados não só na resignação à submissão, mas com muito maior clareza no amor da  servidão. Resulta dessa divisão entre sociedade de liberdade e sociedade de servidão que toda  sociedade dividida é uma sociedade de servidão, é habitada por um mal absoluto, toda  relação de poder é opressiva, de vez que é, como antinatureza a negação da liberdade.

Diferentemente de ROSSEAU, LA BOÉTIE não diz que tal sociedade, talvez, nunca tenha existido, mesmo que os homens tenham perdido a lembrança dela, mesmo que ele, La Boétie, não alimente ilusões sobre a possibilidade de seu retorno. O que se  sabe é que, antes do mau encontro, esse era o modo de existência da sociedade.

Selvagens anteriores à civilização, povos  anteriores à escrita, sociedades pré-históricas, sociedades primitivas,  certamente nomeadas com  propriedade, sociedades primeiras por se desenvolverem na ignorância da divisão, primeiras por existirem antes  do fatal mau encontro. Objeto privilegiado, será exclusivo da etimologia das sociedades sem Estado.

A ausência de Estado, critério interno da antropologia, implica na afirmação

de  CLASTRES[3] a não-divisão desse ser. De modo algum no  sentido de que  a  divisão  da  sociedade pré-existiria à instituição estatal, mas no sentido de que é o próprio Estado que  introduz a divisão, que é seu motor e fundamento. Sociedades primitivas ignoram a  desigualdade: nelas um homem não “vale” nem mais nem menos que um outro, não existe superior ou inferior. Em outros termos, ninguém pode mais que  quem quer que seja, ninguém é detentor do poder. A desigualdade ignorada pelas sociedades primitivas é aquela que divide os homens em detentores do poder e subjugados a ele, a que  divide o corpo social em dominantes  e dominados. É por isso que a chefia não poderia ser o indício de uma divisão da tribo: o chefe não manda porque ele não pode mais que cada membro da comunidade.

O Estado como divisão instituída da sociedade em um topo e uma base é o  acionamento efetivo da relação de poder. Deter este é exercê-lo: um poder que não  se exerce não é um  poder; deter é apenas uma aparência.

Mas para entendermos a condição humana que se deixa trair diante do poder,  necessário avaliar na visão de PIETRO UBALDI[4], que ao dar um subtítulo ao volume “O Príncipe” de Maquiavel, de “Estudo da natureza animal do homem”, define o homem deste século que se ilude com a sociedade dividida: “Sendo ainda dominante esse tipo biológico é bom conhecê-lo e estudá-lo,” inútil, pois, iludir-se. O homem emerge da animalidade. Os primeiros graus do poder são dados pela força, pela imposição, pela  ferocidade. Os chefes de governo do tipo descrito por Maquiavel, descendem dos  domadores de feras. A posição que tem hoje o homem, a de rei do planeta, foi desesperadamente conquistada pela luta por todos os meios e vencida contra todas as  feras rivais. Foi através desse esforço bestial, horrendo para o homem civilizado e, no entanto, feito de coragem desesperada sob pena de extinção da raça em caso de derrota,  esforço diabólico, mas cheio de certa potência viril, do deserdado que sozinho desafia os elementos e as feras inimigas e as submete; foi através dessa tremenda fadiga que o decaído (decaído da sociedade sem divisão) enfrentou o caos, para levantá-los ao primeiro passo em direção ao primitivo estado de ordem (da sociedade sem divisão). Os  primeiros degraus da escala,

continua Pietro Ubaldi, estão imersos em lama e sangue.  Mas, ainda que esmagando, triturando e seduzindo os rebeldes à escravidão, conseguiu assim o homem,  com  mão  de

ferro, construir certa ordem, primeiro passo na  reorganização do caos para uma gradual organização do universo, fruto do esforço imenso de todos os seres, por intermédio do qual, reconstruído o edifício que eles mesmos fizeram ruir,  encontrarão Deus.”

MAQUIAVEL,  ressalta ainda UBALDI , diz que: “O chefe deve manter fidelidade enquanto lhe for útil, e  deixar de observá-la quando terminadas as razões que o fizeram prometer. Não seria  necessário isso se os homens fossem bons, mas sendo maus, da mesma forma que eles não mantiveram a fidelidade, assim  não deve o chefe mantê-la com ele.” Assim Maquiavel aconselha a astúcia, pela qual saiba o chefe com razões legítimas, coloria aquela não  observância dos pactos.” Eis como se comporta o inválido, conclui Pietro Ubaldi.  Sua miopia psíquica ou infelicidade fá-lo  acreditar que a traição, como a ferocidade sejam forças! Em outros termos, em sua ignorância das leis da vida, é levado a procurar o  poder preferindo descer aos planos biológicos inferiores (isto é, ao inferno), em vez de  subir aos planos superiores (ou seja, ao paraíso). O poder está no alto e não embaixo, e aí, apenas ilusão e dor. Por isso, encontra-se hoje a humanidade numa encruzilhada, conclui ele: ou  ela compreende que o problema da convivência, na forma menos dolorosa possível, só  pode ser resolvido aplicando o método do Evangelho, por mais que pareça utopia ou então continua indefinidamente o atual estado infernal.

Em vista desse estado de coisas, podemos, no dizer de Pietro Ubaldi , compreender qual seja a origem do poder e da riqueza. Em si mesmo, o poder pode representar uma função grande, instrumento de imenso benefício, e  a riqueza  se for bem usada, torna-se maravilhoso processo de criação.

Mas não foi isto que aconteceu até aqui: os princípios iluministas do século XVI e XVII se aglutinaram na  pretensa ciência neutra emergente para desagregar-se na  Revolução Industrial, que gerenciou e materializou a estrutura do Estado numa sociedade dividida, escravizada em seu próprio arcabouço estrutural.

Consagrado o Estado Alemão na Fenomenologia do Espírito de HEGEL[5], teve base estrutural em três pólos:  a Teologia, a Medicina e o Direito. É superando até a crítica Kantiana na fundação da Universidade de Berlim, que o Estado se estrutura neste tripé; já que Kant não compreendia porque a  Universidade teria quatro matérias, três superiores: teologia, direito e medicina e uma inferior: a filosofia. KANT[6],  tenta levar, à consciência histórica da época, que a filosofia construía o cidadão, o ser livre, em uma sociedade sem opressão e sem submissão; uma sociedade sem escala de valores  de ficção.

Mas a história do Estado somente pode existir a partir da estruturação da sociedade dividida, da sociedade dos vencidos…

Assim os vencidos, na visão de UBALDI[7], ficam a olhar todas as velhacarias dos vencedores. Não sabem organizar-se, compreender melhor, para fazer melhor. São todos da mesma raça. Vivem assim com a miragem de conseguir um dia apoderar-se  de qualquer coisa, como só pode fazer quem tem em mãos o poder…

Entre os que ficam de fora, continua UBALDI, a olhar de  estômago vazio, são escolhidos os subordinados, os satélites, a clientela dos dependentes que se oferecem, contanto que ganhem algo do banquete. Assim, podem entrar outros nas fileiras dos felizes; nascem daí os representantes das autoridades, mediante cessões parciais; nascem  a burocracia, os administradores, a classe dos escravos do Estado. É, a máquina social a serviço dos patrões. Estes mudam, por vicissitudes políticas, mas aquela permanece porque serve para todos.

Mas, nos escravos, ainda UBALDI  completa, fica também, o instinto de subir, o humano e universal, instinto de dominar. E, não há homem que, ao vestir-se com a  aparência  do patrão, não se sinta por si mesmo investido com a autoridade dele, e também um pouco patrão, e não procure como o fazem os chefes, utilizá-la para si. O homem é sempre o mesmo. Por isso, o funcionário acredita que ele mesmo é, um pouco, o Estado, como o sacerdote crê que é  um pouco a Igreja e, investindo-se da autoridade de Deus,  de que ele se faz ministro, é levado a dogmatizar como tal e isto tendo, por base, apenas suas idéias pessoais, como ministro de Deus; ele se sente um pouco investido dessa onipotência e inefabilidade. Assim, o médico é levado a substituir-se às forças  curadoras da natureza, tentando monopolizar em suas mãos os poderes dela, como os ministros das religiões são levados a monopolizar Deus e utilizá-lo como poder próprio. Por isso, o médico é levado a  assenhorar-se do doente, na luta contra os micróbios, como  o ministro de uma religião é levado a dominar as consciências, impondo-se aos mais fracos. Assim, o exército consciente dessa força pode tentar tomar conta do poder.

Como fundamento do Estado, existe sempre o espírito Gregário, com fim utilitário, para ataque e defesa na luta pela vida. Estas são as bases biológicas e as  verdadeiras origens do Estado. Se quisermos compreender os fenômenos sociais, temos sempre que nos referir aos princípios fundamentais da vida.

É, assim, que instintivamente se formam os grupos, e o que vence os demais forma  a classe dominante que constitui o Estado, o mesmo Estado Romano que impera até hoje através do Direito e que então se organiza, para na defesa e sobretudo para resistir em  sua posição. Em redor desse grupo dominante, rondam como satélites as forças menores da nação, em posição mais ou menos privilegiada e com domínio correspondente a seu valor e poderio. Neste trabalho e distribuição, todos obedecem ao mesmo imperativo e  necessidade imprescindível, que é viver; e, também, de descobrir e usar todos os meios, desde a força, até a paciência do domínio, à adaptação na obediência, para  sobreviverem. Ao vencedor a glória e a própria submissão, só porque ele representa a   capacidade de guia que os subordinados aceitam, apenas como vantagem própria e  defesa.

Como se vê, permanecemos em tudo isto, no princípio do egoísmo e o edifício todo é construído sobre um jogo de egoísmo. O homem de hoje é tal, que é inútil pretender que o Estado, ou qualquer agrupamento humano possa ser algo diferente de  uma organização de egoísmo em bases estritamente utilitárias. Nesse nível evolutivo, o  altruísmo é um absurdo biológico e conseqüentemente estaria decretado à falência da  objetividade dos valores sociais, se algo não acontecer que reverta esta condição e  desenvolva uma  abordagem mais integrativa da gestão, nas muitas gestões empresariais que possam existir.

Ao povo agrada o belo sonho utilitário de ser servido gratuitamente pelos dirigentes. Mas, é uma ingenuidade não saber que a vida nada oferece de graça. Ignora que seu mundo é o da força, e que o povo não será servido enquanto não tiver aprendido a ser uma força e representar um valor. Quem nada vale, nada obtém na vida. Os governantes levarão em conta o povo, quando este souber valer-se pela inteligência, consciência de si mesmo e vontade, quando representar algo no destino coletivo, quando souber até ser terrível e impor-se aos chefes, se necessário.

Diante do que foi exposto, LA BOÉTIE[8] é na realidade,  na visão de  Clastres10, o desconhecido fundador da antropologia do homem moderno, do homem das sociedades  divididas. Antecipa  com  mais  de  três  séculos  de  distância,  a   empresa   de 

Nietzsche e  Marx: ao  pensar a decadência e a alienação. O homem desnaturado existe na decadência porque perdeu a  liberdade, existe na  alienação porque deve obedecer. Reverter este  sentido é converter a   história numa tomada de consciência ímpar, onde  no próprio dizer de La Boétie: “a natureza não queria tanto fazer-nos todos unidos, mas todos uns” e que somos “todos naturalmente livres” e que recebemos “o grande presente da voz e da fala para convivermos e  confraternizarmos mais, e fazermos através da declaração comum e mútua de nossos pensamentos, uma comunhão de nossas vontades.” Nesta,  está inserido o grande momento que se observa no bojo da globalização: a interação da transdiciplinaridade e da interdisciplinaridade que  possibilita a ascensão do altruísmo e da complementaridade de uns para com os outros; uma nova sociedade integradora e  integral, uma sociedade diferente da primitiva, mas evolutiva na sua própria indivisibilidade: uma sociedade da Boa Vontade.

É nesta sociedade da Boa Vontade,  da comunhão de novas vontades que surgirá a moderna e empreendedora gestão empresarial dentro de princípios de  liberdade e não de dominação entre o capital e o trabalho: como  dizia LA BOÉTIE [9] “… o que pensar que deu  a tão pouca gente , como éramos gregos, não o poder, mas  a fibra para sustentar a  força de tantos navios…,  para derrotar tantas nações… senão que, ao que parece… não se tratava da batalha dos gregos contra os Persas, mas da vitória da liberdade sobre a  dominação?!”

É pois, embasando-se nesta ampla  visão que sobrepõe, contraditoriamente, liberdade e dominação que tentaremos  ajustar as bases da gestão empresarial às portas do século XXI: a gestão empresarial frente à falência  da objetividade dos valores sociais.

Qualquer organização que vincule o ser humano numa relação de mais valia entre o capital e o trabalho e que menospreze um dos dois, estabelecendo relações de poder, em detrimento à liberdade, pode ser uma  organização que contribua para uma efetiva falência, na objetividade dos valores sociais.

Este tipo de organização, que somente visa o lucro em detrimento do ser humano, alimenta a forma de desenvolvimento a todo custo, é  a organização que domina  a economia global na atualidade. E no dizer de  LA BOÉTIE, este mau encontro, a política desta organização não se explica pelo exercício da força nem pela presença da covardia, seu mistério reside nessa ausência de  constrangimento, no fato de que a violência não é causa da servidão voluntária do homem ao capital, mas seu efeito. A mola propulsora de sua instauração é o desejo de servir. Causa eficiente da servidão, o desejo servil produz o  modelo, em vez de imitá-lo. Que haja móbeis para esse  desejo, LA BOÉTIE não o nega, pelo contrário, os descreve “querem servir para ter bens”.

Desta forma, na opinião de MARILENA CHAUÍ[10] “ A natureza se faz  costume; o costume se faz memória; a memória se faz repetição; a repetição se faz analogia, identificação. A servidão voluntária não percorre um caminho, trabalha para traçá-lo”. E assim constrói as organizações  que servem ao capital e, portanto, ao  sistema político que alimenta este desenvolvimento pelo desenvolvimento do lucro e da  exploração das relações de trabalho e das relações do trabalho com a natureza.

Constrói-se um sistema de organizações administrativas, cujo técnico específico, no dizer de  COVRE [11], “é requerido  pelo sistema de produção na fase atual do desenvolvimento sócio-econômico brasileiro e um desenvolvimento voltado para a grande empresa que se vê na  contingência de absorver mão-de-obra qualificada para funções de análise, controle e planejamento das atividades empresariais, que pelo nível de tecnologia, se tornaram mais complexas, se burocratizavam para se manterem.”

“O administrador, continua COVRE, expressa o expoente que bem incorpora a ideologia capitalista e cujos conhecimentos de marketing, finanças, planejamento empresarial, etc, são imprescindíveis a operação do empreendimento capitalista, em sua fase  monopolista.”

O administrador incorpora pois, o desejo servil que resulta em “querer servir para ter bens” e consagra o discurso da Servidão Voluntária, servindo ao capital que o faz destacar na relação de poder, dando-lhe  o próprio marketing de sua servidão: como expressa  um artigo da Folha de São Paulo[12], onde administradores formados pela Fundação Getúlio Vargas (SP) escolhem um navio para seu encontro anual e como diz o próprio artigo “A operadora Carrara, do ex-aluno da Fundação Getúlio Vargas Pio Carrara, providenciou o fretamento do transatlântico Costa Marina e cuidou da comercialização dos pacotes” e continua “Para tornar o evento mais atraente, a Associação dos Ex-alunos da Fundação Getúlio Vargas (SP) decidiu promover palestras e premiar  durante a viagem os dez alunos que mais se destacaram em 1998.”

É esta pois, a justificativa do modelo de desenvolvimento incorporado pelas organizações; pelos grupamentos em microssociedades em que se desenvolvem comportamentos peculiares, que fazem surgir novas crenças e valores no dizer de  KANAANE.[13]

A  compreensão desses fenômenos sociais e as prescrições para melhorar a produtividade e a qualidade dos agrupamentos constituem o principal campo da Sociologia aplicada à administração, trazendo para dentro da organização os conhecimentos obtidos com os grupos sociais.  Outra  preocupação da Sociologia aplicada ao contexto empresarial  tende a ser o estudo da  comunidade organizacional, ainda, na concepção de KANAANE[14],  a forma e a maneira pelas quais a mesma organiza as relações sociais de poder e autoridade. As distintas maneiras pelas quais as organizações se estruturam contemplam formas diferenciadas de organização, segundo, ainda, KANAANE, entre outras: a departamentalização, a estrutura matricial, as equipes, as forças – tarefas, as comissões, os  comitês, os colegiados, o que implica a análise e a compreensão das relações sociais contidas nos respectivos agrupamentos. Estes possuem clima, culturas e subculturas organizacionais específicas.

FRIGOTTO[15] afirma que o ponto crucial é que o fato de a nova e fantástica base técnica,  potenciadora das forças produtivas, classe sob relações de exclusão social, ao contrário de liberar tempo livre enquanto mundo da liberdade, produz tempo de  tensão, sofrimento, preocupação e flagelo do desemprego estrutural e subemprego. O trabalho,  enquanto força de trabalho, passa a constituir-se uma preocupação visceral de tal sorte que, perversamente como nos indica FRANCISCO DE OLIVEIRA[16], o  caráter excludente das relações sociais determina que nestas circunstâncias, o trabalhador lute para manter-se ou para  tornar-se mercadoria.

Aqui mais uma vez, lembra-nos CHAUÍ[17], nos remonta ao núcleo da  argumentação de La Boétie, na gênere do “imperium”,  no infortúnio e na insensatez dos que levaram um homem acima dos demais, deixaram-no tomar o título de  capitão, depois de rei e senhor. Esse gesto  de elevação, continua ela, pelo qual um indivíduo é eleito para dirigir os demais colocando-se fora e acima da comunidade de onde saiu, e a  definição jurídica do rei Cristão. E esta fundamentação  jurídica ganha solidez com a passagem do rei para imagem da justiça, e seu corpo é agora duplicado  em pessoa privada e pessoa pública,  sua vontade sendo a República.

Dá-se forma ao Estado e à sociedade dividida, na qual a relação social:  trabalhador/mercadoria, é apenas um reflexo do desejo de servir, e,  é o povo que gera seu próprio infortúnio, cúmplice dos tiranos. Doença que se propaga por contaminação, a tirania, ataca a sociedade inteira. E se o segredo do costume é “ensinar-nos a servir”, nenhum costume é antídoto para a servidão.

Por isso, toda organização que estabelece  relações de  poder estará literalmente fadada à falência da autogestão e autodeterminação, por não se espelhar numa sociedade libertária das amarras milenares do “Imperium” da Tirania.

 Para COMPARATO[18], vivemos hoje, provavelmente, o apogeu da civilização produtivista, que os ideólogos socialistas do princípio do século XIX anunciaram com fervor. Esse novo tipo de civilização apresenta características inteiramente originais, à luz da História. Extrinsecamente, em primeiro lugar, por ser a primeira civilização verdadeirtamente universal. Intrínsecamente, porque o valor social supremo ao qual todos os demais se subordinam, é o trabalho industrial, a atividade de produção organizada de bens e prestação de serviços. Sem dúvida, o objetivo último parece ser, ainda e sempre, o poder sobre a natureza e os homens, e não o luxo, o prazer ou a dissipação. Mas agora, essa onipotência, segundo se acredita, obtém-se não pelo culto religioso, o esplendor de ações heróicas, o labor científico metodicamente conduzido, a pura força militar ou a criação artística e, sim, pela produção industrial.

O crescimento do poder empresarial tornou manifesta a necessidade de se aperfeiçoarem os mecanismos de defesa contra os abusos desse poder. Trata-se, isto sim, de disciplinar o exercício do poder sobre os outros homens, ou a potencialidade de influência sobre o  meio natural, implicados na utilização de bens de produção. Há uma “oligarquia que se autoperpetua”  hoje em dia , representada pelos administradores não-acionistas das grandes corporações que sofrem a concorrência crescente dos tecnocratas estatais, que exercem o chamado “controle externo” sobre os principais complexos empresarias privados.

O que se desvenda, afinal, nesse debate entre “liberdades formais” e “liberdades reais” é um autêntico processo dialético hegeliano, em que a negação das primeiras pelas segundas está a conduzir-nos, necessariamente, à busca de uma superação. E esta última parece advir de dois movimentos complementares: de um lado, a revitalização das liberdades individuais e, de outro, a realização não burocrática das liberdades sociais.

A revitalização das liberdades individuais encontra sua razão de ser, no fato de que elas já não visam apenas, como dantes, à proteção das minorias, mas também à tutela da maioria, face à centralização do poder político e econômico. É o caso paradigmático da defesa do consumidor e, também, o de preservação do equilíbrio ecológico, problemas virtualmente desconhecidos numa fase histórica anterior à da produção industrial em massa.

No tocante às liberdades de conteúdo positivo, as de criar ou reconstruir situações sociais, o movimento de superação do atual impasse terá que buscar a constituição de uma esfera do social, entre os extremos do “público”, entendido como sinônimo de estatal, e o “ privado”, no sentido de interesses meramente particulares, conclui, Comparato.

A experiência universal, nos últimos trinta anos, aí está para nos demonstrar que o sentido das chamadas liberdades reais passou a ser no século XX, não a substituição do Estado pela “livre associação dos trabalhadores”, a realização por obra exclusiva do Estado, de novas condições de vida, sociais e econômicas, podendo-se colocar a tercerização como uma delas. Mas, a indagação que fazemos hoje, insistentemente, no coração das massas , é bem esta: o abandono das liberdades pessoais, diante do Poder benfazejo, constitui realmente o penhor de uma realização mais completa da justiça econômica e social?

Conta MONTAIGNE[19], em certo passo dos Ensaios, o episódio da apresentação à corte de Carlos IX, reunida  em Rouen, para apresentar na oportunidade  três índios brasileiros, trazidos da “França Antártica” por Villegaignom. O rei falou aos aborígenes durante longo tempo. Depois, estes puderam ver o modo de vida dos civilizados, a sua pompa e a forma de sua bela cidade, enfim, todas as coisas que lhes eram absolutamente novas. Alguém, teve, então, a idéia de lhes perguntar o que achavam de mais admirável em tudo aquilo. Empregando uma curiosa maneira de chamar os homens “metade”, uns dos outros, os índios disseram, relata Montaigne, “que havia, entre nós, homens repletos e saciados de todas as comodidades, enquanto as suas metades mendigavam às portas, descarnados de fome e pobreza; e achavam estranho que essas metades tão indigentes podiam sofrer uma tal injustiça, sem se lançar à garganta  dos outros ou deitar fogo às suas casas.”

Rever este equilíbrio perdido, é uma  necessidade urgente e, com o retorno ao princípio de liberdade reavendo o elo de integração homem/terra , descobriremos fontes renováveis de energia para que este civilizado sem direção , encontre nas atitudes  elementares dos ditos primitivos, uma melhor perspectiva de utilização desta tecnologia fadada ao desperdício dos já escassos recursos naturais, bem como contribuindo para, em uma primeira visão, a falência na objetividade dos valores sociais.

“Juro, gera juro, nunca gera mercadoria” gerando, neste final de século, a ficção do  valor reverberado nos capitais voláteis sem rumo; e no dizer de Max Weber[20], gera também “o desenvolvimento do Estado moderno, que teve por ponto de partida a vontade do príncipe de expropriar as potências “privadas” independentes que, ao seu lado, detinham um poder administrativo, isto é, todos os que eram proprietários de meios de gestão, de recursos financeiros e de todas as espécies de bens suscetíveis de serem utilizados politicamente. Esse processo realizou-se paralelamente ao desenvolvimento da empresa capitalista que expropriava pouco a pouco os produtores independentes” e gerenciou, alimentou e materializou a estrutura do Estado numa sociedade dividida, escravizada em seu próprio arcabouço estrutural.

Como fundamento do Estado, existe sempre o espírito gregário, com fim utilitário, para ataque e defesa na luta pela vida. Estas são as bases biológicas e as  verdadeiras origens do Estado e dessa lógica do conhecimento institucionalizado. Se quisermos compreender os fenômenos sociais, temos sempre que nos referir aos princípios fundamentais da vida.

É, assim, que instintivamente, se formam os grupos; e, o que vence os demais, forma  a classe dominante que constitui o Estado, o mesmo Estado que impera até hoje através do Direito. Ao redor desse grupo dominante, rondam como satélites as forças menores da nação, em posição mais ou menos privilegiada e com domínio correspondente a seu valor e poderio.

Neste trabalho e distribuição, todos obedecem ao mesmo imperativo e  necessidade imprescindível, que é viver; e também a de descobrir e usar todos os meios desde a força até a paciência do domínio à adaptação na obediência, para  sobreviver. Ao vencedor a glória e a própria submissão, só porque ele representa a   capacidade de guia que os subordinados aceitam apenas como vantagem própria e  defesa.

Como se vê, permanecemos em tudo isto no princípio do egoísmo e o edifício todo é construído sobre um jogo egoísta. Nesse nível evolutivo, o  altruísmo é um absurdo biológico e conseqüentemente estaria decretado à falência da  objetividade dos valores sociais. Se algo não acontecer que reverta esta condição e desenvolva uma  abordagem mais integrativa da gestão,  poderemos estar fadados à falência dos valores sociais, pois no dizer de Rousseau[21]: “assim os que pretendem que o ato pelo qual um povo se submete a chefes não é um contrato, têm toda razão. É unicamente uma comissão, um emprego no qual simples funcionários do Soberano exercem em seu  poder, do qual ele os fez depositários, e que ele pode limitar, modificar e retomar quando quiser, pois a alienação desse direito é incompatível com a natureza do corpo social, e contrária à finalidade da associação”.  Cabe ainda ressaltar no dizer de Aristóteles que identifica esse “interesse comum” com a felicidade, que é a vida virtuosa[22]: “ Se os homens se associassem e se reunissem em vista tão-só da prosperidade material, sua participação no governo da cidade deveria ser exatamente proporcional à sua fortuna própria, de sorte que o argumento dos campeões da oligarquia aparentariam grande força(…) Mas os homens não se associam apenas em razão da vida material, mas, antes, em vista da vida feliz  (pois, de outro modo, uma coletividade de escravos ou de animais seria um Estado, quando, na realidade, isto é impossível, dado que tais seres não têm participação alguma na felicidade nem na vida fundada na vontade livre)”.

O homem desnaturado existe na decadência porque perdeu a  liberdade; existe na  alienação porque deve obedecer. Reverter este  sentido, é converter a  história numa tomada de consciência ímpar, onde,  no próprio dizer de LA BOÉTIE: “a natureza não queria tanto fazer-nos todos unidos, mas todos uns” e que somos “todos naturalmente livres” e que recebemos “o grande presente da voz e da fala para convivermos e  confraternizarmos mais, e fazermos através da declaração comum e mútua de nossos pensamentos, uma comunhão de nossas vontades.” Nesta  está inserido o  grande momento que se observa no bojo da globalização: a interação da transdiciplinaridade e da interdisciplinaridade que  possibilita a ascensão do altruísmo e da complementaridade de uns para com os outros. Uma nova sociedade integradora e  integral, diferente da  primitiva, mas evolutiva na sua própria indivisibilidade: uma sociedade da Boa Vontade regida por uma lógica desenvolvimentista sustentável..

Diariamente, somos submetidos a um verdadeiro bombardeio de informações sobre problemas ambientais que estão ocorrendo no Brasil e no mundo.

As estações de rádio e televisão, os jornais, as revistas falam do efeito estufa, da destruição da camada de Ozônio que envolve a Terra, dos desmatamentos e das queimadas da Amazônia, da pesca predatória, do derramamento de petróleo no mar, da destruição de manguezais, da contaminação das águas por mercúrio e outros metais pesados, por agrotóxicos, poluição do ar de grandes cidades, inversão térmica, praias contaminadas por esgotos, por lixões onde a grande parte da população se abastece, espécies de animais e vegetais em extinção, destruição da fertilidade do solo, erosão, favelas, desabamentos de encostas com soterramento de moradores, enchentes, secas, extermínio de meninos de rua, desnutrição, violência, desemprego, miséria absoluta e uma infinidade de problemas observados quotidianamente, fruto da desinserção do Homem da Natureza, e da sua relação de sabedoria entre si e o seu próximo.

Fala-se, também, numa crise ambiental que hoje ameaça a sobrevivência da espécie humana no planeta, cuja saída depende de um novo estilo de desenvolvimento: o desenvolvimento sustentável.

Para discutir a crise e sua solução foi convocada pela ONU a Conferência Mundial sobre o Meio Ambiente e desenvolvimento, a Eco-92, reunindo mais de 100 governantes dos países do globo. O Relatório da Comissão Mundial sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento intitulado sugestivamente de: “Nosso Futuro Comum”, constata que “alguns consomem os recursos da terra a um tal ritmo que provavelmente pouco sobrará para as gerações futuras. Outros, em número muito maior, consomem pouco demais e vivem na perspectiva de fome, da miséria, da doença e da morte prematura e nunca se registrou quantidade tão grande de famintos como atualmente.

Em 1980, existiam 340.000.000 de pessoas em 87 países em desenvolvimento com graves problemas de saúde por não consumirem a quantidade mínima de calorias necessárias.  Há, infelizmente, a previsão de agravamento pelo Banco Mundial, o quadro de fome do mundo tende a se agravar e o número de famintos a aumentar. Mas, a disponibilidade de calorias produzidas pela terra permite o consumo diário de 3.140 calorias por habitante do planeta, número superior em quase 31% às necessidades alimentares médias do mundo (2.400 calorias).

Se há  produção de comida diária para suprir com sobras as necessidades de todos os habitantes do planeta, pode-se concluir que o problema da fome decorre da desigualdade na repartição dos alimentos entre nações, e entre as diferentes camadas sociais dos países. Em outras palavras, não basta a produção de boas colheitas, é necessário que as  pessoas disponham de recursos para comprar os alimentos.

Gro Harlem Brundtland considera a pobreza como “a maior causa, e o maior efeito dos problemas ambientais”. Segundo ela, “é fútil tentar tratar problemas ambientais sem uma ampla perspectiva que inclua ambos como fatores essenciais da pobreza mundial da desigualdade internacional.

Segundo a Comissão Mundial sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento:

“O desgaste do meio ambiente foi com freqüência considerado o resultado da crescente demanda de recursos escassos e da poluição causada pela melhoria do padrão de vida dos relativamente ricos. Mas a pobreza polui o meio ambiente, criando outro tipo de desgaste ambiental. Para sobreviver, os pobres e os famintos muitas vezes destroem o seu próprio meio ambiente: derrubam florestas, permitem o pastoreio excessivo, exaurem as terras marginais e acorrem em número cada vez maior para as cidades já congestionadas. O efeito cumulativo dessas mudanças chega a ponto de fazer da própria pobreza um dos maiores flagelos do mundo.”

Entretanto, ninguém, pessoa ou nação é pobre por opção. A pobreza decorre da repartição desigual dos recursos naturais e das riquezas produzidas pelo trabalho da população, entre nações e entre as diversas camadas sociais do interior de cada país.

 Os países industrializados, com 26% da população mundial consomem a produção de 80% da energia, 79% de aço, 86% de outros metais, 85% de papel, 53% de gordura, 38% de proteína e 34% de calorias.

Os países subdesenvolvidos com 74% da população mundial ficam apenas com 20% da energia , 21% de aço, 14% de outros metais, 15% de papel, 47% de gordura, 62% de proteína e 66% de calorias .

Um cidadão dos Estados Unidos consome  o dobro  da energia consumida por um Europeu, cinco vezes a  consumida por um Indiano, cento e  sessenta e oito vezes a  consumida por um Tanzaniano e novecentas vezes a energia utilizada por um morador do Nepal. Estes dados, demonstram que a limitação do crescimento da população dos países em desenvolvimento, por si só, não evitaria o esgotamento dos recursos naturais  e a degradação ambiental. O estilo de vida dos países ricos é tão grave para a ecologia mundial quanto à chamada, “explosão demográfica”, nos países pobres.

Estimativas do Banco Mundial e da FAO, no início dos anos 80, indicaram que o número de pessoas que vivem em estado de pobreza absoluta variava entre 700 milhões e 1 bilhão. Segundo a maioria dos indicadores, em 1989 houve um aumento do número de pobres na Ásia, na África, abaixo do Saara e na América Latina.

Ao lado da desigualdade no acesso aos recursos naturais entre países ricos e pobres, existe uma  ainda mais séria. Trata-se da desigualdade  social, no âmbito dos países em desenvolvimento. O consumo dos 20% de pessoas mais ricas comparado com o dos 20% mais pobres é maior: 8 vezes na Índia, 20 vezes no México, 22 vezes no Quênia, 33 vezes no Brasil. Na França, país rico do 1º mundo, esta  relação é de 9 para 1.

Como, pois, reverter este quadro de desigualdade social entre países ricos e pobres, sem antes remodelar o nosso desenvolvimento a todo custo para um desenvolvimento sustentável, uma nova lógica do saber, possivelmente em conexão com a idéia de comunidade cultural? O senso comum, associa comunidade ao mundo rural. Uma linha da chamada “educação popular”, no afã de valorizar o saber popular, levou, em certos meios, à absolutização do “conhecimento que vem do povo” e da sua trajetória de vida. Ter-se-ia, assim, que buscar no passado e nas tradições (por isso, a ligação  maior desse pensamento com o mundo rural) as soluções para o futuro.

 Vale ressaltar que as organizações de produtores familiares, ONG’s, e setores de instituições públicas, que lidam hoje com a problemática da agricultura sustentável apropriada, não adotam mais esta perspectiva simplista para estes; desenvolvimento sustentável não combina com atraso. Se um modelo de agricultura sustentável para um país tropical  está em gestação, ele deve se basear e se produzir, tanto no plano agronômico quanto no da gestão , através de uma  combinação de tradição e de inovação, de saber adquirido pela experiência e de saber técnico-científico numa nova concepção de Universidade.

Falar de comunidade é também falar de um território, onde a convivência permite o conhecimento mútuo e possibilita a ação conjunta. Na escala humana, este é o espaço onde os cidadãos podem fazer algo a seu alcance, passível de ser entendido e de produzir efeitos visíveis.

Sem uma mínima consciência ecológica, não reverteremos este quadro desolador das diferenças sociais geradas por um desenvolvimento econômico acelerado e sem metas na busca de uma reorganização do Estado,  que possa minimizar as diferenças sociais e acelerar a promoção humana rumo à sustentabilidade duradoura de seu sistema bio-psico-social e espiritual, fundante de uma sociedade da Boa Vontade.

Esta sociedade da  Boa Vontade tem bases libertárias na aplicação efetiva do método do Evangelho de Jesus, que levará necessariamente à integração social, através da fraternidade dos seus elementos diversos, numa unidade de princípios igualitários e semelhantes, onde a chave para o desenvolvimento é a participação, a organização, a educação e o aumento do poder das pessoas dentro da lógica do desenvolvimento sustentável.

Para KANAANE[23], trabalho e existência humana são noções correlatas. O homem é essencialmente  um ser que produz o mundo e a si mesmo. Seu trabalho deve estar voltado para a liberdade, criação e realização, pois a participação, via envolvimento da comunidade, restaura o referencial perdido contra  a alienação e o engajamento nas situações imediatas de trabalho.

A integração, ainda na visão do autor KANAANE (1989), que seria responsável pela manutenção da solidariedade entre as unidades para o eficiente funcionamento do sistema social, tem como contra partida o conflito, muitas vezes encarado como algo desfuncional, anormal ou patológico.

Em termos organizacionais, a administração dos conflitos seria feita, então, sob a forma de participação, pela integração do empregado, dos interesses da empresa, tendo como respaldo as motivações individuais/grupais. Neste aspecto o conflito surge como algo natural e salutar para o equilíbrio organizacional.

Fela MOSCOVICI[24]  em seu estudo  sobre comportamento organizacional, retrata entre outros pontos, a necessidade de que as  estruturas organizacionais e, em especial, os executivos criem mecanismos facilitadores para que haja a participação efetiva do homem nos respectivos ambientes de trabalho, havendo, dessa forma, a valorização do ser humano concomitante aos avanços tecnológicos.

    Este direcionamento, acrescenta ainda KANAANE[25],  significa o enfoque contrário aos padrões da administração tradicional, destaca a necessidade de servidão dos atuais valores presentes na organização e evidencia sobremaneira o ser humano em termos de crescimento a partir do desenvolvimento organizacional, ou seja, torna as estruturas mais flexíveis, permite o  livre acesso à comunicação, às trocas interpessoais e ao constante intercâmbio com o ambiente externo à organização.

A participação, como mecanismo de interação social e política, para Kanaane, retrata o grau de amadurecimento existente nas relações presentes nos diferentes setores da organização.  Para que se possa atuar como agente de transformação social e administrativo, é necessário considerar os aspectos extrínsecos e aqueles inerentes à condição humana, no sentido de compreendermos a convivência grupal e comunitária (valores, normas, sistemas de comunicação), evidenciados nas organizações.


[1]2  CLASTRES, Pierre.  Liberdade, mau encontro, Inominável . In LA BOÉTIE, Etienne de,  O Discurso da Servidão Voluntária, 4. ed. , São Paulo: Brasiliense, 1985, p. 110-113.

[2]3  LA BOÉTIE, Etienne de.   O discurso da servidão voluntária. 4. ed. , São Paulo:Brasiliense, 1985.

[3]4  CLASTRES, Pierre.  Liberdade, mau encontro, Inominável . In LA BOÉTIE, Etienne de,  O discurso da servidão voluntária, 4.ed. , São Paulo: Brasiliense, 1985.

[4]5  UBALDI, Pietro.  Problemas atuais.  3. ed.,  Rio de Janeiro:Fundação Pietro Ubaldi, 1986.

[5]6  HEGEL, G. W. F.  Fenomenologia do espírito. Petrópolis – Vozes, 1992.

[6]7 KANT, E. Critique de la faculté de juger suivi de Idée d’une  hitorie universelle au point de vue cosmopolitique et le Réponse à la question: Qu’est-ce que les lumiéres?. Paris: Gallimard, 1985. 561p. vol.1. 

[7]8  UBALDI, P.  Problemas atuais.3. ed.  Rio de Janeiro: Fundação Pietro Ubaldi, 1986.

[8]9 LA BOÉTIE, Etienne de.  O discurso da servidão voluntária. 4.ed. , São Paulo: Brasiliense, 1985. 239 p.

10 CLASTRES, Pierre. Liberdade, mau encontro, Inominável, in LA BOÉTIE, Etienne de. O discurso da servidão voluntária, 4. ed., São Paulo: Brasiliense, 1985, 239 p.

[9]11 LA BOÉTIE, Etienne de.  O discurso da servidão voluntária. 4. ed.,  São Paulo: Brasiliense, 1985. 239 p.

[10]12 CHAUÍ , M   Amizade, recusa do servir in Discurso da servidão voluntária. Etienne de La Boétie, 4. ed.,  São Paulo: Brasiliense, 1987.

[11]13 COVRE, Maria de Lourdes Manzini  A formação e a ideologia do administrador de empresa. 3. ed. Cortez, 1991 – p. 181-182

[12]14  Ex-alunos analisam o balanço das Ondas.  Folha de São Paulo, 23, mar, 1998.

[13]15 KANAANE, R.   Comportamento humano nas organizações  O homem rumo ao século XXI,  São Paulo: Atlas, 1994

[14]16 FRIGOTTO, G.  Educação e a crise do capitalismo real.  São Paulo: Cortez , 1995.

17 cit. in FRIGOTTO 1990:12

[15]18 CHAUÍ , M   Amizade, recusa do servir in Discurso da servidão voluntária                  Etienne de La Boétie, 4. ed.,  Brasiliense, São Paulo:1987.

[16]

[17]

[18]19 COMPARATO, Fábio Konder .  Para viver a democracia.   São Paulo: Brasiliense,1989, 214 p.

[19]20 MONTAGNE apud  COMPARATO, Fábio Konder  Para viver a democracia,  São Paulo: Brasiliense, 1989, p. 36, 37, 214 p.

[20]21 MAX WEBER apud COMPARATO, Fábio Konder.  Para viver a democracia,  São Paulo: Brasiliense, 1989, p.59, 214 p.

[21]22 ROUSSEAU apud COMPARATO, Fábio Konder. Para viver a democracia, São Paulo: Brasiliense, 1989. p.59, 214 p.

[22]23 ARISTÓTELES apud COMPARATO, Fábio Konder. Para viver a democracia, São Paulo: Brasiliense, 1989. p. 81, 214 ps.

[23]24 KANAANE, R. Comportamento humano nas organizações:o  homem rumo ao século XXI, São Paulo: Atlas, 1994

[24]25 MOSCOVICI apud  KANAANE.  Renascença organizacional. Rio de Janeiro:  Técnico e Científico, 1989

[25]26 KANAANE, R. .   Comportamento humano nas organizações – O homem rumo ao século XXI,  Atlas, São Paulo: 1994

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