A Homeopatia frente a EpistemologiaII-CAPÍTULO II

O Perfil Epistemológico da Homeopatia

CAPÍTULO II – O PERFIL EPISTEMOLÓGICO DA HOMEOPATIA
 
“A mais elevada e única missão do médico é tornar saudáveis as pessoas doentes, o que se chama curar.”
Samuel Hahnemann (1) 1°p. Organon da Arte de Curar
 
I- A NOÇÃO DE PERFIL EPISTEMOLÓGICO:
 
Para Bachelard (2) uma psicologia do espírito científico deveria esboçar o perfil epistemológico das diversas conceptualizações, um perfil mental que pudesse medir-se a ação psicológica efetiva das diversas filosofias na obra do conhecimento, para mostrar o que permanece de conhecimento comum nos conhecimentos científicos. Procura utilizar o próprio conceito de massa para fazer isto, colocando em ordem genética: realismo-empirismo-racionalismo.
 
Faz-se necessário, agrupar todas as filosofias para termos o espectro nocional completo de um conhecimento particular. E só será possível descrever a vida filosófica das noções, estudando as noções filosóficas implicadas na evolução do pensamento científico. Um perfil epistemológico guarda a marca dos obstáculos que uma cultura teve que superar, e nesta região o material nocional não é naturalmente muito rico, pois as noções em vias de dialetização são delicadas, por vezes incertas. Correspondem aos germes mais frágeis: é no entanto nelas, e por elas que progride o espírito humano.

Diante disto, necessário se faz a construção do perfil epistemologia da ciência hahnemanniana na arte de curar, de forma que possamos mostrar o que permanece de conhecimento comum em relação ao conhecimento científico atual, para depois tecermos com o novo espírito científico uma integralização do pensamento humano na concepção unificadora entre tecnologia e natureza, entre o moderno e o antigo, entre filosofia e “physis”, entre alopatia e homeopatia, entre o pensamento analítico e o pensamento sintético, entre a parte e o todo, entre Hipócrates e Hahnemann.
 
Parafraseando Bachelard, isto só será possível estudando as noções filosóficas implicadas na evolução do pensamento científico.
 
O perfil epistemológico homeopático guarda pois, a marca dos obstáculos que a cultura alemã teve de superar, e talvez o processo de transmutação cultural que a Homeopatia enfrentou ao ser inserida historicamente na cultura francesa, possibilitou que a ciência hahnemanniana superasse estes obstáculos originais, possibilitando desenvolver os germes nocionais inovatórios do vitalismo hahnemanniano dentro de um ambiente onde o material nocional e cultural do iluminismo nascente era muito mais rico.
 
Em termos metodológicos, por outro lado, a filosofia social do século XVIII – sobretudo a francesa – une o racionalismo cartesiano com empirismo inglês do século XVII. Em outras palavras, a razão não é mais apenas a faculdade que descobre, pela indução ou pela dedução, as “verdades perenes”, isto é, as leis da Natureza e do intelecto humano. A razão é agora principalmente a capacidade – faculdade do espírito destinada a produção das verdades, independentemente de estas serem eternas ou universais. As veracidades, sobretudo as sociais, como as idéias na inteligência, tem sua história, da mesma forma que as leis sociais.

(1) HAHNEMANN, C. F. Samuel: – “Organon da Arte de Curar”. São Paulo, Gr.fica Editora Ltda., 2° edição em português da 6° edição alemã, 1981
(2) BACHELARD, Gaston:- “A Filosofia do Não”. Abril Cultural,1974.
 
 
II – A HOMEOPATIA EM BREVE FOCALIZAÇÃO HISTÓRICA GERAL
 
A Homeopatia surgiu por volta de 1796, data de publicação de “Ensaio sobre um novo princípio para cobrir as virtudes curativas das substâncias medicinais seguido por algumas apreciações sobre os princípios admitidos até hoje”, no qual Cristiano Frederico Samuel Hahnemann assenta as bases de uma nova metodologia científica dentro de um contexto social marcado pela dicotomia de uma medicina essencialmente empírica e o início da construção da racionalidade científica moderna.
 
Portanto, era uma doutrina nova que surgia tentando colocar um novo princípio, que levaria a uma visão organicista da história dessa racionalidade. Visão esta, e organização de mundo expressa no Renascimento, que se propaga desde o início do século XIV na Itália, com a literatura (Dante, Petrarca, Boccacio), até o século XVI, nas artes plásticas, na música, nas ciências, na tecnologia, na cosmologia, na filosofia. Sobretudo, na concepção de unidade harmônica, integrada e evolutiva da vida que caracteriza a biologia pré-darwinista e mesmo, em grande parte a darwinista.
 
Mas ao surgir num período compreendido pelo século XVI até o XVII, onde pensadores e analistas sociais da ciência ( políticos, historiadores, filósofos) chamam de período da “revolução científica”, onde iniciava-se uma ruptura desta visão-organização de mundo, advinda do Renascimento para uma visão reducionista e mecanicista do mundo, a sinonímia da Natureza com a matéria, e a concepção da matéria como composto de elementos irredutíveis, analiticamente dedutíveis e empiricamente comprováveis, e que ainda hoje dominam as teorias das ciências naturais (4).
Como pois, haveria de se consagrar a Homeopatia nascente; numa época de modificação de costumes e ideias, e uma série de momentos inaugurais na criação artística, filosófica, científica e tecnológica, que teve uma ressonância progressiva, a partir de centros urbanos de irradiação, para todo o mundo conhecido (O“ Velho Mundo”).
 
A “Medicina da Experiência”, como assim chamou Hahnemann em seu livro editado em 1805, acompanharia essa ressonância, que produz uma série de mudanças profundas no comportamento político, econômico e cultural da Europa, cujos efeitos de mutação se fizeram sentir até o século XVIII, apesar das reações político-religiosas de conservação, de repressão, tão bem ilustradas pelos tribunais da Inquisição, pela contra-reforma, pelas guerras e perseguições religiosas etc., presentes em todo o período, e descritas pelos historiadores.
E preciso não esquecer, por outro lado, da verdadeira “explosão de talentos” – para empregar uma expressão atual, que caracteriza a época, isto é, a presença de um grupo diversificado de artistas plásticos, literatos, cientistas, invetores e filósofos humanistas que, intérpretes pessoais privilegiados das forças de mudança em ascensão na sociedade, criaram novas formas de linguagem e novas teorias nas artes ( gravura, pintura, arquitetura, desenho, poesia, conto, teatro, música), nas ciências (astronomia, matemática, física, anatomia, fisiologia), na filosofia (cosmologia, metodologia da ciência, filosofia social ), na moral e na política.
Emerge neste momento na história, em diversos campos da atividade social, a representação do indivíduo como força criativa independente, como sujeito de mudança, pessoal e social. Nada mais compreensível que linguagens e teorias, como práticas sociais, estivessem, em todos os domínios, fortemente impregnados de um antropocentrismo humanista.
Foi pois, através deste antropocentrismo humanista centrado na força criativa de Hahnemann quando publica “Fragmenta de viribus medicamentorum positivis sive in sane corpore humano observatis” que a Homeopatia consagrou como método terapêutico de experimentação no indivíduo são, e instituindo-se como doutrina homeopática em 1810, data da publicação de sua principal obra ” Organon da Medicina Racional”, mais tarde “ Organon da arte de curar”, da qual preparou seis edições (5).
Institucionalizada como doutrina, e elevada à condição de arte de curar, tamanha a percepção evolutiva do método descoberto, Hahnemann ainda publica “Matéria Médica Pura” e o”Tratado das Doenças Crônicas”, que foi praticamente um estudo aprofundado de sua experiência clínica durante dez anos de aplicação do método descoberto. No ano de 1835, casa-se pela segunda vez aos 80 anos de idade, e alguns meses depois deixa a Alemanha e muda-se para Paris onde teve autorização para exercer medicina. E se tivesse tido tempo suficiente ainda teria publicado mais obras, demonstrava sempre uma preocupação quanto ao aperfeiçoamento do método descoberto, haja visto sua dedicação ao trabalho até o final da vida.
Mas se por um lado este antropocentrismo humanista, esta representação do indivíduo como força criativa independente, como sujeito de mudança, pessoal e social possibilita a consagração do novo, como aconteceu não só com a Homeopatia de Hahnemann, com a Filosofia de Kant, com a Psicologia de Freud ou mesmo Jung, com a Física de Newton ou Einstein, com a Epistemologia de Bachelard e mesmo com A Estrutura das Revoluções Científicas de Kuhn, não nos permite uma percepção global da realidade da estrutura do pensar humano.
Enquanto pois, estivermos submetidos a esta ou aquela escola, a esta ou aquela ideologia, a esta ou aquela forma de pensar, seremos como certos homeopatas, certos físicos, certos sociólogos, certos psicólogos ou mesmos certos psicopatas a delirar na dicotomia de nossa forma restrita de pensar. Acredito pois, que somente um completo domínio do pensar humano, ou seja, a integralização do conhecimento na forma real do pensar, nos possibilitará um grau de liberdade que nos coloque numa concepção intuitiva do tempo-espaço; o que resultará numa mudança comportamental das relações sociais, onde a necessidade do conhecimento perpetuará um sentido de busca um no outro, possibilitando a troca fraterna num grande esforço comum de entendimento do que chamam de Vida e seu maior fenômeno: O Ho mem.
 
(4) LUZ, Madel T.: – “Natural, Racional, Social: Razão Médica e Racionalidade Cl entífica Moderna”. Rio de Janeiro: Editora Campus, 1986.
(5) HAHNEMANN, C. F. Samuel: – “Organon da Arte de Curar”. ed. tradução de Edna Marturano Villela e Izao Carneiro Soares. Ribeirão Preto: Museu de Homeopatia Abrahão Brickmann, 1995.
 
 
III – A HOMEOPATIA NO CONTEXTO HISTÓRICO ESPECÍFICO
 
Um estudo mais sério das origens das idéias que influenciaram Hahnemann na concepção da doutrina homeopática foram até agora negligenciadas, e por esta razão a história da Homeopatia tem-se limitado numa idolatria estagnante à personalidade de seu idealizador, o que influenciou deveras a evolução natural desta metodologia científica, pelo sincretismo que decorre esta doutrina além de ter estabelecido uma alteração fundamental de paradigmas.
 
Como vimos anteriormente dentro do contexto histórico geral quando do surgimento da Homeopatia, era uma doutrina nova que surgiu tentando colocar um novo princípio, que levaria a uma visão organicista da história de outra racionalidade médica, um sistema racional e experimentalista da arte de curar doentes, tendo como objeto epistemológico básico e ponto de partida clínico, o indivíduo doente.

Visão esta, e organização de mundo expressa no Renascimento, mas que foi rompida para uma visão reducionista e mecanicista do mundo, que se apresentava como um sistema fechado autoexplicativo das doenças e suas causas, gerenciando o saber da clínica moderna, orientado pela morte (anatomia patológica),voltava-se para a causa da doença (agente patogênico) e para sua origem espaço temporal (localização orgânica e história sintomática), enquanto o saber da clínica homeopática volta-se enquanto sistema aberto inter-explicativo para o indivíduo (doente) e sua relação com o meio no sentido de reparar-lhe a energia da vida (curá-lo ) orientado dentro de um contexto dinâmico individual e global contínuo, ou seja no contínuo espaço tempo da física quântica.
 
Após pois a evolução do pensamento científico, é que poderemos localizar o deslocamento epistemológico da homeopatia que se encontrava até então anacrônica em face da anatomoclínica, que avança como racionalidade médica dominante:
 
“Do início do Renascimento até o final do século XVIII, o saber da verdade fazia parte do circulo da vida que se volta sobre si mesma, e se observa; a partir de Bichat, ele é deslocado em relação à vida, e dela é separado pelo intransponível da morte no espelho da qual ele a contempla”(6).
 
Para Hahnemann, que sofreu a dicotomia do pensar, porque incorporou totalmente a sua doutrina num modo de vida próprio e conflitante com a medicina de sua época, como colocar em uma carta em 1808 ao Dr Hufeland (7): não pôde pois,divisar na época uma síntese destes dois grandes sistemas de cura preconizado por Hipócrates, a cura pelos semelhantes e a cura pelos contrários, e que refletem ainda hoje na prática médica de maneira divergente as concepções e categorias básicas, mas também o próprio objeto de conhecimento e o objetivo da clínica dos dois sistemas médicos, o Alopático e o Homeopático.
O que vimos portanto, é que a Homeopatia enquanto um sistema que trazia em sua origem um núcleo de mudanças fundamentais e revolucionárias para o pensamento científico da época, necessitava ser estabelecida com certa determinação frente a um momento histórico conturbado pela riqueza de idéias fermentadas que nasciam simultaneamente e que caracterizam as grandes revoluções científicas como bem analisa Kuhn(8).
Mas se por um lado, havia uma necessidade de uma determinação que pudesse dar corpo a uma doutrina revolucionária, como foi a Homeopatia para a época; determinação esta, que representada na pessoa de Hahnemann uma força criativa independente, sujeito capaz de mudança, pessoal e social; ao mesmo tempo corria-se o risco de que o método se confunde com a personalidade do autor e se tornasse um dogma fechado em si mesmo, principalmente numa época de reformas e contra-reformas religiosas que dividiam o filão dos adeptos, que libertos do “cabresteamento” ideológico não suportavam a orfandade abrupta do despotismo, buscando novas formas de submissão a novos dogmas.
Para pois, repensarmos a doutrina homeopática necessário se faz uma análise acurada da época contemporânea de Hahnemann afim de que se aperfeiçoe mais o método, integralizando-o ao conhecimento científico da época e da atualidade.
 
(6) FOUCAULT, M.: – “Naissance de la Clinique”. Paris, PUF, 1963, trad. bras.Forense Universitária, Rio de Janeiro, 1977
(7) HAHNEMANN, C. F. Samuel: — Lettre à un médecin de haut rang sur l’urgence d’une réforme en médecine”. in Etudes de médecine homeopathiques; 1° série.Paris Maloine, 1989; pp 400 – 413.
(8) KUHN, Thomas S.: – “A Estrutura das Revoluções Científicas’. Editora Perspectiva, 2° Edição, 1978; SP.
 

IV – IDÉIAS QUE CONTRIBUÍRAM PARA A ESTRUTURAÇÃO DA DOUTRINA HOMEOPÁTICA
 
O exame das origens das idéias que contribuíram para a estruturação da doutrina homeopática é uma tarefa árdua e difícil como nos coloca Pinet (9), pelas seguintes razões:
 
Hahnemann, segundo tudo aparenta, não revelou suas principais fontes;
 
– É difícil de analisar e reconstituir a considerável erudição de Hahnemann que poderia ser comparada à de Mesmer que não se refere praticamente a nenhum autor.
 
Hahnemann cita centenas de autores, mas de significado secundário e muito poucos diretamente.
 
– Em metodologia histórica e mesmo em metodologia científica, deveremos desconfiar das coincidências, e não será suficiente de anotar as similitudes entre os autores. Isto não prova que uma influência foi direta e determinante, em ocorrência aqui, pela evolução do pensamento de Hahnemann. Seria necessário de analisar as diferenças entre os autores.
 
Mas Pinet faz menção a três autores, que contribuíram para a estruturação das idéias que culminaram com a descoberta por Hahnemann, dos três princípios essenciais de sua doutrina, são eles: Nugent, Hunter e Cullen.
 
Hahnemann encontrava-se com a idade de 21 anos quando entra em contato com a idéia homeopática ao traduzir“ Essay on hydrophobic” (1753 ) de Christopher Nugent (- 1775), onde o autor relata um caso de um jovem servente curado de raiva e estabelece uma hipótese de substituição mórbida artificial por um método calmante ou relaxante e outro método estimulante ou irritante. Sua prática alopática durante uma dezena de anos atesta que esta ideia não provocou nenhum impacto sobre ele.
Em seu tratado de doenças venéreas de 1789, Hahnemann tem emprestado muitas idéias de John Hunter, grande especialista da questão e cirurgião renomado da Inglaterra, cuja obra era muito procurada em 1786. Na introdução, Hunter emete um princípio fisiológico geral que, um pouco diferente do princípio de similitude de Hahnemann, eles se aproximam. Pinet demonstrou ainda a concordância das idéias de Hunter da incompatibilidade das doenças e as de Hahnemann de substituição mórbida já perceptíveis no “A medicina da experiência” de 1805 (10). A concepção de Nugent encontra-se igualmente incluída, apesar de que nem ele nem Hunter utilizassem o ter mo de substituição de Hahnemann. Em 1790, assim que constata os efeitos da quinquina em si mesmo, ele tenha muito provavelmente rememorado o princípio de Hunter e ainda mais a ideia homeopática de Nugent. Segundo Hael (11) somente em 1799 que Hahnemann menciona pela primeira vez as doses extremamente diluídas, enquanto que a noção de sucussão em 1801.
O aspecto um tanto paradoxal e ilógico do método indicado por Nugent e Hunter provavelmente incitou Hahnemann a lhe dar uma outra forma em 1796, dentro de seu “Ensaio sobre um Novo Princípio, para Descobrir o Poder Curativo das Drogas, seguido de algumas Anotações sobre os Princípios admitidos até Agora”, primeiro desenvolvimento importante da ideia homeopática. Por isto, vemos que ele se apoia sobre Cullen, de forma que conhecendo a autoridade dentro do domínio da matéria médica pela experiência acumulada que ele tinha, e que marcava a vontade de colocar em ordem esta Matéria médica e pretendia um conhecimento mais científico das propriedades dos
 remédios. Dentro de seu importante tratado de 1789, Cullen reafirma a dificuldade de apreciar os efeitos próprios e diretos das substancias e dos remédios principalmente quando se introduz o efeito da reação vital de defesa do organismo.
Hahnemann conservou toda sua vida esta teoria de dualidade consecutiva da ação de uma substância e em 1796 ele faz descansar, de uma forma bastante original, a indicação homeopática sobre esta teoria, a legitimando pela estimulação secundária pelo remédio da reação vital e espontânea de defesa contra a moléstia análoga.
 
E bom lembrar que Sauvages (1706-1767), dentro de seu discurso preliminar à sua “Nosologia metódica” (1759) exprime uma concepção análoga da moléstia se quando excede a noção de matéria morbífica, Cullen, partindo da teoria nervosa, se opõe firmemente à teoria humoral: ” Veremos em respeito a causa, e sintomas que deveremos atribuir à matéria morbífica, e outros que deveremos atribuir à natureza, e são estes dois tipos de sintomas reunidos que constituem a moléstia”(12).
Cook (13) coloca que Hahnemann tinha um respeito inconfessável pela medicina inglesa personificada por Harvey, Cullen, Jenner, Brown e ainda é referido (14) uma evidente filiação entre Nugent, Hunter, Boyle e Hahnemann.
 
Ainda é bom ressaltar a título de informação, que Hahnemann admirava bastante o filósofo Kant apesar de reprovar o vocabulário da crítica da razão pura, numa carta de Hahnemann de 1811 publicada por Hael.

 
(9) PINET, P.:- Quelques sources importantes et méconnues de la doctrine homéopathie – lère parthie, in Homeop. Fr., 1988, 76, N° 1, pp. 43-56
(10) GUERMONPREZ, M., PINKAS, M., TORCK, M. Matiere Medicale Homeopathique, Doin éditeurs, Paris.
(11) HAEL, R.: – Samuel Hahnemann. His life and work.trad. de l’ allemand par M.L.Wheeler et W.R.H. Grunay. B.Jain., New Delhi, 1971.
 
(12) BOISSIER DE SAUVAGES,F.:-“Nosologie méthodique”. Trad. du latin par Gouvion 10 vol. 1772; 129227410179
 
(13) COOK, T.: -“Samuel Hahnemann, the founder of homeopathic medicine”, Wellingborough, 1981.
 
(14) PINET, P.- Une source majeure de la thérapeutique infinitésimale. in Homéopathie Fr., 1988, 76, pp. 325-350.
 
V – O MÉTODO TERAPÊUTICO RACIONAL DE CURAR
 
“As luzes se definem como uma saída do homem de um estado de minoridade, a um outro em que se mantém por sua própria culpa”
  Kant (15)
 
Como foi dito até agora, o método terapêutico homeopático é apresentado a partir das seguintes obras de Hahnemann: 1)- “Ensaio sobre um Novo Princípio, para Descobrir o Poder Curativo das Drogas, seguido de algumas Anotações sobre os Princípios admitidos até Agora” (1796); 2)- “Esculápio na Balança” (1805) e 3)- “Organon da Arte de Curar” (1810). Surge como prática terapêutica sistematizada no início do século XIX, fruto de insatisfações do médico alemão Samuel Hahnemann (1755 1843) com a medicina de sua época. Tendo concluído seu curso em 1779 pela Universidade de Erlangen, abandona a profissão em 1787, inconformado com a imprecisão dos meios e os absurdos de sua prática.
 
Num ensaio que publicou em 1805, “Esculápio na Balança”, comenta o estado de indignação que o atingiu ao descobrir a fraqueza e os erros de seus professores e livros e ao constatar que a medicina era vã e incapaz de progredir. Classifica a cura das doenças agudas como recuperação espontânea. Acusa os médicos de transformarem as enfermidades tratadas não em saúde, mas em outras doenças e de dissimular a inconsistência de seus conhecimentos, acumulando sistema sobre sistema. Cada qual composto por diversas espécies de conjecturas, opiniões, definições, postulados e predicados unidos por silogismos escolásticos.
Elogia Hipócrates como o que se aproximou da descoberta da ciência e lamenta que as eras que o sucederam tenham se perdido da trilha indicada criando sistemas vazios. Cita, por exemplo, as teorias da origem da doença em um princípio universal hostil, o antídoto universal que curaria todas as doenças e os quatro tipos biológicos de Galeno (sanguíneo, fleumático, colérico e melancólico). Reclama que depois da invenção da imprensa aparece um sistema a cada dia: a influência das estrelas, de espíritos maus e bruxas, os alquimistas com o sal, enxofre e mercúrio, as seitas mecânicas e iatromatemáticas que explicam tudo pela forma das pequenas partes, seu peso e pressão. Além dos químicos, que encontram uma fértil causa das moléstias no desenvolvimento de vários gazes, dentre inúmeros outros exemplos. Ironiza os médicos que não mais percebem as doenças como elas são, mas querem por raciocínios a priori encontrar a origem das enfermidades na especulação, delirando nas alturas metafísicas.
 
Por não aceitar uma tradição baseada apenas em opiniões e caprichos, Hahnemann desiste da prática terapêutica, mas continua refletindo sobre ela incansavelmente, através das traduções, em especial, de textos médicos e químicos; meio em que encontra para subsistir.
 
Ao publicar, pois, a primeira edição do “Organon da Medicina Racional” ironizando no seu prefácio a medicina da época, essa antiga escola medicamentosa vangloria se de ser a única a pode pleitear o nome de “Arte de curar racional”, alegando que só ela se esforça em pesquisar a afastar a causa da doença e que também procede nas doenças segundo os passos da natureza. E mais adiante neste mesmo prefácio passa a definir uma força vital, “capaz de atuar por si mesma, apenas segundo o raciocínio e a reflexão, não foi conferida a nós, Homens, para que tivéssemos considerá-la como a melhor e única curadora de doenças, reconduzindo aqueles tristes desvios da saúde ao seu padrão normal e muito menos para que os médicos devessem imitar servilmente aos imperfeitos esforços mórbidos (para salvar se, ela própria, da doença) com disposições indiscutivelmente mais inadequadas e mais agressivas do que ela própria é capaz de produzir evitando, com isso, de maneira cômoda, o dispêndio de raciocínio, de reflexão de juízo crítico necessários à descoberta e à concretização da mais nobre das artes humanas: a verdadeira arte de curar, fazendo passar tal copia ruim da auto-ajuda pouco eficaz a força bruta da natureza por arte de curar, por arte racional de curar” tenta pois, chamar a atenção para si que o método terapêutico racional de curar nascia a partir dele e daquela publicação.
 
Numa carta de Hahnemann publicada em 1811 por Hael, demonstra sua admiração pelo filósofo Immanuel Kant, que apesar de reprovar o vocabulário da crítica da razão pura deixa-se influenciar em sua obra por este mesmo vocabulário, que destacamos: raciocínios a priori, críticas à racionalidade médica da época, medicina racional, arte racional de curar, e estabelece conceitos e observações a partir de seu conhecimento clínico de toxicologia, da experimentação empírica no homem são, da análise de resultados até conceber as doses infinitesimais e definir força vital.
 
Nasce pois, o método terapêutico homeopático de uma racionalidade Kantiana de base experimental empirista o que se justifica já pelo nome da primeira edição da principal obra doutrinária da homeopatia o “Organon da medicina racional” que evoluiu na segunda edição (1819) para “Organon da Arte de Curar”, aonde a Arte será mais ampla para abarcar a razão, e a verdadeira arte de curar só poderia ser pura experiência experimental, segundo Hahnemann: “pode e deve ser repousar em fatos claros e fenômenos perceptíveis, pertencentes à sua esfera de ação, pois todos os elementos que trata são clara e satisfatoriamente cognoscíveis pelos sentidos ajuda, através da experiência” e completa que ” a razão, nada pode saber por si (apriori); não pode, só por si, estabelecer conceito sobre a natureza das coisas, sobre causa e efeito; toda e qualquer de suas conclusões deve sempre basear-se em evidências palpáveis, em fatos e experiências.” Define ainda que “a verdadeira arte de curar é uma atividade reflexiva que conduz à grandeza do espírito humano, à reflexão livre e ao raciocínio, a fim de, por meio de uma afecção semelhante provocada por um medicamento escolhido homeopaticamente, demover a força vital instintiva – desprovida de razão e intelecto, mas provida de energia automática – quando perturbada pela doença, deixando-a de tal modo afetada pelo medicamento e elevando-a mesmo a um tal grau, que a afecção mórbida não mais possa atuar sobre ela, deixando-a livre para ocupar-se apenas com a afecção medicamentosa semelhante à doença natural e até um pouco mais forte, mas que a força vital, dirigindo agora contra ela toda sua energia, em breve domina, tornando-se, com isso, livre e apta a retornar ao estado normal de saúde e à sua própria disposição: “a estimulação e manutenção da saúde no organismo”, sem haver sofrido com tal transformação qualquer agressão dolorosa ou debilitante. Tal procedimento nos ensina a arte de curar homeopática.”(16). Nas seguintes edições do Organon, 3° a (1824), 4°a (1829), 5°a (1833) e 6°a (póstuma – 1921), novos conceitos, como o das moléstias crônicas, da força vital, da dinamização dos medicamentos e modo de realizá-la, vão sendo introduzidos. Demonstra do o aperfeiçoamento do método e a tentativa de maior fundamentação conceitual, a partir das observações da prática clínica e da experimentação medicamentosa.
 
Composto por 291 parágrafos, a 6°a edição do Organon apresenta sistematizados os corpos teóricos e prático da homeopatia. Palavra oriunda do grego, homóios = semelhante e páthios = sofrimento, inventada por Hahnemann e utilizada pela primeira vez, ao que tudo indica, em 1809.
 
Hahnemann (17) reconhece a contribuição que a química dera à terapêutica. Em especial nas atividades paliativas contra os efeitos dos ácidos, dos alcalinos, dos antídotos de venenos, ajudando a determinar a qualidade de alimentos e fornecendo testes paras detectar a adulteração dos remédios.
 
Reconhece, também, a importância da química na descoberta do poder medicinal das drogas, mas critica os métodos que inferem que os resultados obtidos nos tubos de ensaio são os mesmos que se obteriam em vivo. Censura a injeção de drogas na veia dos animais, como um método estranho e incerto, uma vez que a resposta destes às substâncias é muito diferente da dos homens, por serem distintas as suas constituições. Se por exemplo: a) bastam alguns grãos de noz vômica para matar um homem, ao passo que um porco pode engolir uma grande quantidade, sem experimentar nenhum mal-estar; b) o acônito é fatal para a espécie humana, ao contrário que acontece aos cães, que podem comer suas flores, folhas e sementes, então, “como se pode deduzir dos efeitos dos medicamentos sobre os animais, quais os que eles exerceriam sobre os homens?(17). Além do que: “pelo menos é certo que as sutis mudanças internas e sensações, o homem pode expressar por palavras, mas aos animais é um possível” (17).
Combate os que supõem encontrar nos signos externos das substâncias um caráter mais seguro para se descobrir suas virtudes medicinais. Não admite que a forma, o cheiro ou o sabor possam indicar as propriedades curativas de um vegetal, nem que se possa esperar uma perfeita similaridade de ação entre plantas classificadas no mesmo grupo botânico, por suas características externas. As vezes, pelo contrário, elementos do mesmo grupo são completamente diferentes em seus efeitos terapêuticos.
 
Desde 1790, Hahnemann iniciara em si próprio a China officinalis, a experimentação de substâncias no homem são. No ensaio de 1796, apresentava, como a única forma de conhecer de modo confiável os efeitos medicinais das drogas, a experiência metódica no corpo humano, Rejeitava, no entanto, os testes empíricos feitos em hospitais,
onde os medicamentos eram misturados ou usados em afecções específicas, ou escolhidos por noções obscuras ou caprichos cegos, em que nenhuma razão plausível fosse apresentada pelo experimentador. Não aceitava a experiência em organismos doentes, pois seus resultados eram intrincados e de difícil avaliação, mesmo para um hábil observador. Propunha, não o teste cego e desordenado, e sim o experimento científico baseado em um princípio racional para a gradual descoberta e aplicação do adequado remédio para cada caso individual de doença.
Esse princípio racional é expresso em forma de axioma: “cada poderosa substância medicinal produz no corpo humano uma espécie peculiar de enfermidade; ao mais poderoso medicamento, a mais peculiar, marcada e violenta enfermidade” (18)
 
Indicava a necessidade de se imitar a natureza, que as vezes cura uma enfermidade crônica acrescentando outra, e de empregar na enfermidade que desejamos curar o medicamento que é capaz de provocar uma outra enfermidade artificial bastante similar, similia similibus.
 
Os princípios fundamentais da homeopatia são sistematizados: 1) o similia similibus curantur (sejam os semelhantes curados pelos semelhantes), 2) a experimentação do homem são, 3) o medicamento único, 4) e o último as doses infinitesimais, surgiria um pouco mais tarde (19).
 
Preocupado em criar um método terapêutico, estabelece no início do livro, que o único objetivo da prática médica é o de curar. Tal definição ética obrigaria o médico a agir e não a pensar hipóteses frívolas sobre a essência do processo vital, que nunca seria conhecido, e não forjar teorias sobre a origem das enfermidades, enganando os doentes, sem dar alívio a seus males. A cura é enunciada como o restabelecimento rápido, suave e duradouro da saúde ou aniquilamento da doença, em toda a sua extensão, agindo por princípios facilmente compreensíveis.
 
No terceiro parágrafo sintetiza as condições para que o médico saiba agir de maneira útil e profunda: 1) perceber claramente o que há para ser curado nas doenças, (isto é, em cada caso individual de doença) – conhecimento da doença; 2) perceber claramente o que é curativo nos medicamentos (isto é, cada medicamento em particular) – remédio único e conhecimento dos poderes medicinais; 3) saber adaptar, de acordo com princípios bem definidos (similia similibus), o que é curativo nos medicamentos ao que considerou indubitavelmente patológico no paciente, de tal maneira que a cura deva sobrevir, se sabe adaptá-lo tanto a respeito da conveniência do medicamento mais apropriado, quanto ao seu modo de ação no caso que se trata – escolha do remédio; 4) saber a maneira exata de sua preparação e quantidade, dose certa – dose infinitesimal; 5) conhecer os obstáculos ao restabelecimento em cada caso e saber remove- lo de modo que a cura seja durável – miasmas.
 
1- Conhecimento da enfermidade
 
Hahnemann define o homem como um ser, aparen-temente, trinário, composto de um corpo, força vital e espírito dotado de razão. A força vital, que anima dinamicamente o organismo, forma com esse uma unidade um todo.
A saúde é o estado em que a força vital mantém todas as partes do corpo, suas funções e sensações em atividade harmônica. E claro, portanto, que a doença é o desequilíbrio da força vital, atingido por um agente morbígeno, de forma dinâmica.
 
Ora, em qualquer caso de enfermidade individual. só podemos perceber as alterações do estado anterior de saúde, reconhecidas pelos sentidos – os sintomas – que o doente sente e as pessoas e o médico percebem. A totalidade sintomática é, assim, o efeito do desequilíbrio da força vital, é o reflexo da essência interna do homem que se exterioriza. Cabe ao médico perceber essa totalidade para removê-la e promover a recuperação da saúde. Se o organismo e a força vital constituem uma unidade, ao afastar a perturbação desta, desaparecem os sintomas daquele. Eliminada a totalidade sintomática, a força vital readquire o equilíbrio. Saúde e enfermidade explicam-se como interdependência no contraste entre o visível e o invisível e o interior e o exterior. A essência inatingível que, no entanto, se revela por sua aparência.
 
O homeopata, como um colecionador sofisticado, pesquisa os objetos raros, estranhos e peculiares (os sintomas). Prefere a raridade à quantidade uniformizante. E acrescenta Bessa (20) que na época em que a racionalidade moderna pulveriza os objetos para melhor analisá-los, e a medicina, depois da divisão do indivíduo em mente e corpo, começa a fragmentá-lo em aparelhos, órgãos, tecidos e células para, por último, abstraí-lo da própria enfermidade, aparece Hahnemann que desvia seu olhar para o doente. Procura na imagem da totalidade sintomática o mapa que mostra a possibilidade do enfermo recuperar sua saúde, reconstruir sua unidade e reintegrar-se na harmonia da vida. A classificação redutora das doenças, semelhante à organização das espécies, pela botânica, conclui ainda Bessa (21), Hahnemann contrapõe a estranhaza, a irregularidade e a idiossincrasia do homem.
 
2- Lei dos semelhantes
Se a moléstia é a afecção da força vital e esta só pode ser alterada de forma dinâmica, decorre que todas as perturbações mórbidas, também só podem ser afastadas de modo dinâmico. As alterações da saúde apenas serão cura das por remédios que ajam na força vital. Por outro lado, se a doença é uma modificação no estado de saúde e a cura é a conversão daquela nesta, então: “os medicamentos jamais poderiam curar moléstias, se não tivessem o poder de alterar o estado de saúde do homem que depende de sensações e funções; em verdade, que seu poder de cura seja atribuído apenas a este poder que tem de alterar o estado de saúde do homem” (22).

Hahnemann estava convencido pela experiência, de que os sintomas patológicos não eram movidos por medicamentos que provocam no homem são sintomas diferentes (Alopatia) contrários àqueles apresentados pelo enfermo; havia, sim, um recrudescimento, depois de um alivio transitório e aparente.
 
O único método eficaz de cura seria o homeopático, pelo qual “procuramos para a totalidade dos sintomas do caso de doença, um remédio, que dentre todos os outros, tenha o poder e propensão de produzir um estado mórbido ortificial, o mais semelhante ao caso em questão” (23).
 
3- Experimentação no homem são
Hahnemann criticara o emprego de vários medicamentos de uma só vez, por dessa forma impossível identificar o efeito que cada um provocara, além de eventualmente, um interferir na ação do outro.
 
Para se conhecer os efeitos medicinais das substâncias, propõe que elas sejam experimentados cuidados te, uma de cada vez, e em pessoas sãs. Afirma que cada medicamento, depende da suscetibilidade individual, desenvolve sintomas comuns, característicos ou peculiares em todos os experimentadores, provocando efeitos diferentes das demais substâncias e apresentando ações próprias, peculiares nos diversos organismos. Aponto a necessidade de vários experimentadores em decorrência da variação da sensibilidade individual para cada droga. Apesar de todas as pessoas serem suscetíveis aos medicamentos homeopáticos, isso ocorre em distintos graus. Despreza o teste em doente, por que esses estão com a capacidade de reação alterada e exacerbada, originando resultados obscuros e confusos.
 
Ancorado no princípio racional da similitude, pro põe uma série de regras para o controle e observação da experiência, segundo três critérios: para o experimentador, para os medicamentos e para o diretor. Destacaremos, a seguir, apenas os principais aspectos de cada um dos critérios. Para o experimentador é importante que seja livre de doenças; saiba descrever suas sensações em termos precisos; seja auto-observador, que beba apenas uma substância e abstenha de qualquer outra, que anote com fidelidade as sensações, sofrimentos, acidentes e mudanças da saúde que experimenta, no momento de sua ocorrência: o tempo que surgiu depois de tomada a medicação e o período de duração; e devem par pessoas de ambos os sexos e de diferentes constituições física e mental. Quanto ao medicamento: devem ser conhecidas sua pureza e legitimidade; deve ser administra em estado simples, uma substância isolada, pura de cada deve ser administrada, em jejum, na dose de quatro a seis glóbulos por dia, da trigésima dinamização, por vários dias, se necessário e as plantas necessitam de cuidados especiais de observação. Por último, o diretor da experiência, acompanha diariamente o relatório dos sintomas, questiona o experimentador para esclarecer cada sintoma e cada cor constância em que ele aparece, anotando os detalhes mais minuciosos, e considera terminado o trabalho quando nada de novo surge e quase os sintomas aparecem nos experimentadores posteriores.
 
Ao conjunto de manifestações apresentadas pelo indivíduo sadio e sensível, durante a experimentação, denominou-se patogenesia. A coleção de patogenesias constitui a Matéria Médica Homeopática.
 
4 – Remédio único e doses infinitesimais
Se a força vital é alterada de forma dinâmica, quando então, manifesta os sintomas, é clara que todas as perturbações mórbidas só podem ser afastadas de modo dinâmico. Assim as moléstias serão curadas, apenas por agentes que ajam na força vital, provocando uma alteração dinâmica semelhante.
 
Os medicamentos comuns, além de eficazes por produzirem efeitos opostos aos da doença, danosos ao organismo por provocarem envenenamentos e intoxicações, agiam no plano material, orgânico. Mas as enfermidades estavam na dimensão imaterial e impalpável. por trás da aparência sintomática estaria a força vital invisível
 
Para curar é necessário libertar das substâncias poder medicinal silente e inativo. Trata-se de agir no invisível e dinâmico, por meios invisíveis e dinâmicos. Hahnemann dilui as drogas e as sucussona algumas vezes – “dinamiza- as”. Transfere as substâncias do reino da química para o reino da física, elas deixam de agir na superfície do corpo, na rigidez dos tecidos, e de circular na fluidez do sangue. Mergulham na profundidade imponderável das forças, na tessitura escorregadia dos nervos e das fibras e transitam através da intocabilidade da respiração. E criada para a homeopatia uma técnica farmacêutica especial de preparação medicamentosa.
 
Aparentemente, Hahnemann desenvolve essa técnica por diversos motivos: a) evitar as doses ponderáveis das drogas, pois as considerava ineficazes ao agirem no sentido oposto dos sintomas e danosas, por provocarem lesões, intoxicações e até envenenamento; b) por sua concepção vitalista do homem, compreende a doença como uma perturbação dinâmica do princípio vital. O resgate do equilíbrio só aconteceria, se o remédio agisse no mesmo nível. A dinamização liberaria o poder medicinal dinâmico das drogas; c) retirar os efeitos tóxicos dos venenos e transformar qualquer substância, mesmo as inertes, em medicamentos, ampliando o seu número; d) evitar a ação secundária dos medicamentos. Hahnemann acreditava que toda droga agia duplamente na força vital. De início, alterando com intensidade e tempo variáveis a saúde do homem. Embora essa perturbação dependesse tanto da força vital, quanto da droga, ele considerava o papel da segunda mais relevante. A essa ação da droga corresponderia, uma reação da força vital em sentido oposto, a ação secundária (cit. 73 – Alusão óbvia à terceira lei do movimento de Newton: “A toda ação há sempre oposta uma reação igual, ou, as ações mútuas de dois corpos um sobre o outro são sempre iguais e dirigidas a partes opostas.”), e) evitar a agravação dos sintomas, em sua prática clínica Hahnemann observara que a administração da droga provocava, pela ação primária, uma agravação dos sintomas do paciente, principalmente nos casos agudos. Ao diminuir a dosagem da substância ao diluí-la, desaparecia, quase na totalidade, esse efeito incômodo e indesejável; para ele: “quanto menor a dose do remédio homeopático no tratamento das moléstias agudas, tanto menor e mais curto é o incremento aparente da moléstia durante as primeiras horas” (24); f) outra possível razão, sem dúvida mais prosaica, era talvez, a de evitar que os boticários pudessem provar que o produto que ele administrava aos do entes, contivesse alguma substância medicinal, uma vez que ele fora processado por infringir os privilégios daqueles, ao preparar seus próprios remédios. No ensaio Esculápio na Balança, Hahnemann descreve sua total objeção à corporação dos farmacêuticos, que monopolizava o aviamento das receitas médicas.

 
(15) KANT, Emmanuel: – “Critique de la faculté de juger suivi de Idée d’une histoire universelle au point de vue cosmopolitique et de Réponse à la question: Qu’ est-ce que les lumières?”. Editions Gallimard, 1985; 561 p.gs.: 1 vol.
 
(16) HAHNEMANN, C. F. Samuel: -“Organon da Arte de Curar”. 6° ed. tradução de Edméa Maturano Villela e Izao Carneiro Soares. Ribeirão Preto: Museu de Homeopatia Abrahão Brickmann, 1995. – Organon de la Medicina – Edicción 6B, redacción y Traducción revisadas por Dr. Q. F. Kurt Hochstetter F. Santiago de Chile, Ed. Hochstetter, 1980. “Organon da arte de curar”.6 ed. Gráfica ed. Ltda, APH, 1981.
 
(17) HAHNEMANN, S.: “Ensaio sobre um novo princípio para descobrir as virtudes curativas das substâncias medicinais, seguido por algumas apreciações so bre os princípios admitidos até hoje.” Revista de Homeopatia, APH, vol. 59, n°s 3-4, 1994
 
(18)(19) (22)(23) (24) HAHNEMANN, C. F. Samuel: – “Organon da Arte de Curar”. São Paulo,Grafica Editora Ltda, 2° edição em português da 6° edição alema, 1981

(20)(21) BESSA, Marco, “Filosofia da Homeopatia – Análise das noções de Força Vital, vida, natureza homem no pensamento de Hahnemann”, Curitiba: Aude Sapere Editora, 1994.

VI – A HOMEOPATIA PÓS-HAHNEMANN
 
No ano de 1835, Hahnemann tinha ido para Paris e chama a atenção o fato de que no ano seguinte foram publicados, quase simultaneamente, três trabalhos que resumiam a doutrina homeopática num determinado número de leis. Tinha-se a sensação de que, após a retirada de Hahnemann, havia chegado a ocasião de se ajuizar quanto ao que havia de consistente em sua doutrina, sem precisar temer o veto irritado do intolerante autocrata, como colocar Tischner (25).
 
Além da “ Mensagem a todos os admiradores da te terapêutica racional e teses sobre a Homeopatia” de Rau(Giessen, 1836), demasiadamente resumida, contendo apenas algumas páginas, surgiu a “Confissão aberta” de Griesselich e Schrön que é consideravelmente mais detalhada, descrevendo clara e decisivamente o ponto de vista dos livres, mas com a desvantagem de ter se tornado confusa, através de longas citações. O melhor trabalho são as “Dezoito teses para amigos e inimigos da Homeopatia” de Paul Wolf (26), revistas e algo aclaradas e ampliadas por Rummel e Gross. Foram apresentadas e unanimemente aceitas na reunião da Sociedade Central de Magdeburg em 1836. A maneira como foi concebido trabalho e o seu objetivo de ser aceito pela Sociedade Central deixam concluir que foi dada maior ênfase aos pontos em comum do que às divergências entre eles.
 
O destino das teses não foi feliz, pois, Hufeland morreu 15 dias antes da reunião de Magdeburg e o seu sucessor negou a sua publicação no “ Journal”, embora, como parece, Hufeland já tivesse dado seu consentimento. Elas aparecem, por isso, no arquivo de Stapf e, consequentemente não ficaram conhecidas nos círculos da medicina acadêmica, e também nos círculos homeopáticos não são conhecidos como merecem ser, pois a impressão de resumos bem reduzidos que ocorreu diversas vezes não proporciona uma visão suficiente das teses e omite justamente pontos importantes. Somente Wapler as reproduziu integralmente com os artigos de Hufeland.

 
(25) TISCHNER, Rudolph: – “Comentários a respeito das 18 teses de Paul Wolf”. Revista Brasileira de Homeopatia, vol. 1, n° 1,1991.
(26) HAEL, Richard: – “As dezoito teses Wolf para amigos e inimigos da Homeopatia”. Revista Brasileira de Homeopatia, vol. 1, n° 1,1991.
 


 
VII – ARGUMENTOS E CONTRA ARGUMENTOS EM HOMEOPATIA
 
“As “Dezoito teses” merecer tão pouca atenção da medicina acadêmica quanto os trabalhos de Müller, Schrön, Griesselich e Arnold; dava-se preferencialmente atenção a Hahnemann e aos hahnemannianos, em vez de se ocupar dessa “Magma carta” da Homeopatia crítica e dela se inteirar decididamente. – Quão necessário é, fazer um corte incisivo entre Hahnemann e a escola crítica; mostram, ainda as palavras de Kurtz. Após elogiar em Hahnemann. o que é elogiável, ele diz para encerrar: “ Certamente não é demais afirmar: Foi Hahnemann que abriu, na Homeopatia, as feridas mais profundas, foi ele, em cujo leito de Procusto a medicina deveria definhar eternamente.” (Kurtz, “Mensagem ao Sr. Dr. J.C.G. Jöng”; Lpzg, 1838). Esta frase demonstra o quanto os críticos tinham se afastado de Hahnemann, sem, contudo, abandonar os princípios básicos da Homeopatia. – E necessário, porém, fazer a restrição de que não se teria utilizado expressão tão incisiva, se se conhecesse a verdadeira opinião de Hahnemann sobre as “al alterações internas” e as doenças crônicas.” (27). Como podemos notar do que foi transcrito no parágrafo precedente, o deslocamento epistemológico da Homeopatia se deve não somente à sua necessidade de firmação como ciência, pois trazia como principal responsabilidade a inovação do método científico dentro de uma época que nascia a própria revolução científica”, surge portanto deslocada; como decorre também do ostracismo dos homeopatas primeiros, que se fizeram discípulos e não companheiros críticos do mestre idealizador, preferindo muitas vezes a ladainha discursiva ao trabalho de comprovação da metodologia nascente diante das criticas conservadoras e resistentes à própria inovação.
 
Devemos pois, ressaltar o discurso incisivo e um tanto doutrinário que prepondera em duzentos anos de história desta nova ciência para contrapor um discurso de verdadeira resistência e total inércia conservacionista. O que contribuiu para perpetuar ainda mais este deslocamento epistemológico, não possibilitando entre uma nova ciência que crescia em “adeptos” e a crítica científica que se vendia ao método ideológico capitalista nascente, que financiou a pretensa e consagrada “revolução científica” de hoje; troca esta de fundamental importância e de cuja condição é inerente para a evolução do pensar do novo espírito científico.
 
Com isso, temos dois séculos de argumentos e contra argumentos evasivos referentes à Homeopatia, pouca produção científica de seus seguidores que não acrescentam nada de novo ao conhecimento homeopático nascente que pudesse reestruturar a forma de pensar numa nova lógica conhecimento humano.
 
(27) TISCHNER, Rudolph: – “Comentários a respeito das 18 teses de Paul Wolf”. Revista Brasileira de Homeopatia, vol. 1, n° 1,1991.
 

VIII – A HOMEOPATIA E A CIÊNCIA: AS RELAÇÕES DO SABER E DO AGIR
 
Colocados ao mesmo tempo, a contemporaneidade do nascimento da homeopatia e da medicina moderna esclarece esta proximidade temporal, mas se acompanha de uma oposição imediata que fez nascer uma rejeição e isolamento da homeopatia pela ciência. Nossa medicina moderna é o resultado da evolução do método anátomo-clínico que Michel Foucault analisou brilhantemente no seu livro. Nascimento da clínica (28), mas não se refere à homeopatia que nasce exatamente na mesma época (fim do séc. XVIII e começo do séc. XIX). Mas ela se fixa, a partir de um fundo comum, de uma arqueologia comum, em razão de uma oposição, de uma divergência. E esta divergência segundo Marchat (29), decorre das relações do saber e do agir, e cita Canguilhem (30) para reforçar de que a ideia positiva mesmo “ que falta saber para reina sobre a medicina, e reinará no dizer de Marchat antes e depois da “mutação” anátomo-clínica de que fala Foucault. Conclui ainda que enquanto a homeopatia origina associando saber e agir, a “ciência” médica nascente sacrificando o agir (curar, acompanhar os doentes) à uma edificação do saber. Ela terá sem dúvida alguma culpabilidade que motiva o isolamento, a rejeição da homeopatia que, sem cessar se tomará a ser identificada como o “pecado original”.
 
Mas, Hahnemann, guiado pelo seu senso terapêutico (“a única vocação do médico é curar”), veio, em dissociando agir e saber, abrir uma nova via de apreender as doenças.
 
1 – Uma aproximação fenomenológica das doenças
Na medida que se privilegia e se amplia a relação das doenças dentro do seu aparato e de sua dissociação do saber e do agir efetuaria um curto-circuito na “ciência médica” nascente. Para Hahnemann, e para a homeopatia, de fato, a doença resultará sempre em um estar doente e a ciência transformara a doença, pouco a pouco, ao final de suas descobertas, em se ter uma doença. Mas diante deste “devaneio da ciência”, a homeopatia jamais pensará como “deixada entre parênteses”. Seus caracteres fixados se mostraram como uma contestação da ciência, nascendo assim dois séculos de relações difíceis e conflituosas. E é igualmente esta desavença mal entendida de parte de uma e de outra que nascerá a rejeição falada. E será esta rejeição que traz a possibilidade mesmo da homeopatia, e a possibilidade mesmo do “curto-circuito” da ciência, e ainda a possibilidade mesmo de descortinar o agir e o saber misturado com a “ciência médica de onde a legitimidade deverá ser redefinida se o fato homeopático for reconhecido. Para que deixarmos os pesquisadores pesquisar, sem outra questão, se ainda falta a eles que o mito do saber fundador do agir seja mantido. Esta aproximação fenomenológica das doenças implica da parte do “olhar” homeopático uma fidelidade ao estar-doente ao lidar dentro de toda sua complexidade, de toda suas nuâncias, sua riqueza sensível, perceptível. E é esta de certa maneira, foi a origem de sua oposição à medicina clássica, parece vir, segundo um paradoxo que não é aparente, o motor de sua aproximação a razão de sua proximidade de espírito com os domínios científicos colocados mais em evidência atualmente.
 
Marchat ao estabelecer os pontos de real convergência da homeopatia com aquilo que chamou as ciências do paradigma”, diz que esta será a ocasião de se colocar em lição a dimensão sistêmica do ser vivente pela homeopatia se notará então, a origem prática da oposição homeopatia – medicina “moderna” (oposição esta teórica, mais teórica uma vez que em primeira intenção de forma prática). Assim numerosos conceitos novos estarão aparecendo desta ciência em “metamorfose”. E nós veremos, segundo ele, que se a medicina atual pode estar de acordo a se reconhecer uma existência de direito (isto é descritiva, explicativa, e enfaticamente diagnotícia), de fato, no que se concerne ao plano terapêutico, todos seus conceitos neste campo são deixados no esquecimento. Ou a homeopatia possibilita esta abertura, como uma ordem de prioridades que explique as coisas, privilegiando uma visão essencialmente, senão unicamente terapêutica. A medicina moderna tem quanto a ela, principalmente e principiamento uma visão de conhecimento. E somente se secundariamente aparece uma visão terapêutica.
 
Essa diferença de abordagem, essa inversão de prioridade entre o saber e o agir teve uma significação, contra ainda Marchat, que conduz a uma reflexão sobre as relações do saber, do agir e do poder como centro nodal a ambigüidade do poder: poder de fazer (poder de agir, capacidade) e poder – autoridade. E a questão da necessidade de ocultar o fato homeopático pela ciência foi feito de uma pressão in- quietante. Que isto quer dizer? Que o método anátomo-clínico para se edificar, para ter seu objeto, para poder observar a doença “presa como corpo dentre dos corpos vivos” dos doentes tinha rejeitado dentro da sombra um meio real (mais “verificáveľ”!) de curar: a homeopatia. É então, a positividade, o senso de encaminhamento à morte de doentes curáveis” que nós tínhamos achado.
 
Foi por isso, que ao lado do anúncio rejeitando uma nova aliança entre o homem e a natureza, nós fomos fisgados sobre as relações da ciência e da morte. E descobrimos sua pro intimidade profunda, sua inquietante familiaridade, no dizer ainda de Marchat, que lembra um texto de Michel Serres (31), Traição: a tanatocracia tinha elegido nosso horizonte do pensamento sobre este grave tema e nós fomos servidos de apoio.

(28) FOUCAULT, M.: – “Naissance de la Clinique”, Paris, PUF, 1963, trad. bras. oter se Universitária, Rio de Janeiro, 1977
 
(29) MARCHAT, Philippe M. – L’Homeopathie et la science: Les rapports du savoir et de l’agir. Mémoire présenté pour l’obtention philosophie, Universite de Toulouse Mirail, U.F.R. d’Etudes Philosophiques et d’enseignement de Politiques.
(30) CANGUILHEM, Georges. Le normal et le pathologique. Paris, P.U.F., cinquiéme édition, 1984224 p., p.58.
(31) SERRES, Michel, La traduction (HERMES III) PP. 73-104 Cit. in MARCHAT, e M. – L’Homeopathie et la science: Les rapports du savoir et de l’agir. Mémoire présenté pour l’obtention de la maitrise d’enseignement de philosophie. Universite de Toulouse Mirail, U.E.R. d’Etudes Philosophiques et Politiques.
 
IX – NA BUSCA DE UM PENSAR INTEGRAL: CONFLUÊNCIAS HISTÓRICAS DA CIÊNCIA MÉDICA NORMATIVA ATUAL E A HOMEOPATIA CONTEMPORÂNEA SOCIAL.
 
As diversas conceitualizações que fizeram evoluir o pensamento cientifico atual transformou-o numa ciência extremamente normativa e materializante neste final do século XX; engessando conceitos de grande vitalidade e energia a partir do fim do século XVIII e a primeira metade do século XIX. É nesse período que se elaboram no dizer de Luz (32), na filosofia social, por um lado, na medicina, por outro, certas categorias e os conceitos fundamentais para a constituição teórica de Medicina científica e da Sociologia. Tais conceitos adquirirão, continua ela, pouco a pouco forca de norma, de regulação de vários aspectos da vida social: da constituição de sujeitos individuais, a instituições e práticas sociais que tais conceitos, expressos em enunciados científicos, dão forma e materialidade ao longo de todo o período.
 
A multiplicação de disciplinas, de objetividade discursivas especializadas, é na visão de Luz, uma das características mais importantes da racionalidade moderna. Praticamente desdobráveis ao infinito, as disciplinas podem tematizar seja conjunto de relações teóricas entre sistemas de proposições, seja a matéria desde sua mais ínfima partícula até o gigantesco astronômico, seja a totalidade dos seres vivos, vegetais, animais, humanos. E, entre os seres humanos, seja suas relações sociais, seja a privacidade cotidiana de seus afetos e hábitos individuais, seja a materialidade orgânica de seu corpo.
 
A razão médica instituída como ordem médica, combate e elimina categorias, conceitos e teorias divergentes e concorrentes, através de estratégias de produção de discursos e políticas sociais, afirma ainda Luz, e esta racionalidade científica moderna não se caracteriza pelos ideais contemplativos de compreensão do Ser – e suas causas de filosofia grega clássica.
 
Desta forma, o modelo racionalista, mecanicista e dualista da racionalidade científica, dominante também na medicina, dificulta ou mesmo impossibilita o reconhecimento de outras “verdades”, isto é, de outras teorias e conceitos contrários ao reducionismo da clínica anátomo-patológico e da fisiologia mecânica, baseada na química analítica do enciclopedista Lavoisier.
 
Compreende-se, deste modo, por que apesar de eclosão de inúmeras teorias e sistemas explicativos da doença, e das mais variadas propostas de cura para todos os hinos de epidemias e doenças endêmicas que assolaram Nações durante o período clássico, somente aqueles que partilhassem dos postulados implícitos do racionalismo filosófico das ciências tinham alguma chance de se legitimar cientificamente. Não apenas, ou principalmente por serem mais eficazes, em termos de intervenção, em face das urgências sociais, mas por serem mais coerentes com a racionalidade moderna em construção.
 
O vitalismo homeopático, entretanto, fundado pelo alemão Samuel Hahnemann (1755-1843) não se apresenta como um sistema explicativo das doenças e das causas, mas como um sistema racional e experimentalista da arte de curar doentes. O indivíduo doente é portanto, o ponto de partida clínico e o objeto epistemológico básico do sistema homeopático. Sem entender esse princípio nocional que fundamenta toda homeopatia, continua-se imerso na “ciência das doenças”, e não se tem condições de perceber em que reside a distinção da proposta homeopática em face a outros sistemas.Em outros termos trata-se de uma outra racionalidade médica, em muitos pontos antagônica mas naturalmente muito rica, pois suas noções em vias de dialetização são delicadas, por vezes incertas. Correspondem aos germes mais frágeis: é no entanto nelas, e por elas que progride o espírito humano na afirmação de Bachelard.
 
As categorias e condições a serem analisadas destacam-se as de racional, natural social, e vida, saúde e doença, tal como aparecem formulados no pensamento científico, social e médico, da segunda metade do século XVII ao século XIX; os de normalidade e patologia, equilíbrio e desvio, tal como se enunciam na medicina e na sociologia do século XIX, Os principais teóricos enunciadores dos conceitos e categoria- as tomados para análise são: Rousseau, Comte, Bichat e Claude Bernard, ao menos no período considerado crucial para a elaboração do discurso disciplina da Medicina Cientifica e da Sociologia. Muitos deles postulam a razão e o método científico como norma fundamental para obtenção do conhecimentoto ou, de modo mais geral, como um modo de produção da verdade, e não simplesmente, como um modo de produção de verdades. De Descartes a Bachelard há uma linhagem continuada de defensores da razão científica como único critério de produção de verdades, e um longo trajeto da racionalidade moderna como produtora da verdade.
 
Assim, exterioridade, independência e objetividade são praticamente sinônimo da moderna percepção da “Natureza”. A Natureza da racionalidade científica moderna, será progressivamente, o fruto de uma montagem epistemológica. Montagem que permitirá a ordenação não apenas no mundo “externo” ao humano, mas também do “interno”, conclui Luz.
 
Da atividade de julgamento pragmático e crítica em relação ao saber constituído, e da construção artesanal de métodos na produção de novos saberes, nasce o experimentalismo, um dos traços constitutivos característicos de novo modo de produção de enunciados de verdades, o método científico moderno.
 
A natureza, para Luz, desdivinizada é dissociada ao mesmo tempo do sagrado e do humano, é colocada na objetividade, e objetividade material. Esta natureza material é coisificada: torna-se objeto, e a razão torna-se sujeito do conhecimento. A razão torna-se assim, condição fundamental de apropriação do objeto pelo sujeito, de sua sujeição. A natureza tornar-se-á realmente “força produtiva a serviço da história econômica. Institui-se a dualidade mais importante, em termos epistemológicos, a ruptura Natureza-homem, na medida em que ela cria, no mesmo movimento, um objeto privilegiado de intervenção da razão, e na medida que atribui estatuto de realidade às qualidades matéria – espírito e objeto sujeito.
 
Desta forma, os sistemas de produção de verdades específicas que se constroem sob o traço dualista desta racionalidade – as disciplinas científicas – tendem a reproduzir nas suas teorias, dualidades e dicotomias, apesar da redução periódica de um polo da dicotomia a outro, estabelecendo-se um monismo epistemológico, teórico, ou metodológico nas ciências. Na física, na Química, na Fisiologia, na Psicologia, na Medicina, vão ser encontrados exemplos dessas dualidades dicotômicas.
 
Ocorre pois, uma ruptura que não é apenas epistemológica, mas social e psicológica, na medida em que institui instâncias socialmente exclusivas para o exercício de cada um desses compartimentos: a produção de verdades para a razão (ciência); as paixões para a política e para a moral (ética); os sentimentos e os sentidos para as artes (estética). Esta compartimentação terá o efeito de “negar” socialmente o sujeito humano e “neutralizá-lo” epistemologicamente, criando condições históricas para torná-lo, como a Natureza, objeto da ciência, isto é, para naturalizá-lo, torná-lo coisa passível de intervenção, de transformação, de modelação, de produção.
 
Na verdade, a visão mecanicista do Mundo, a sinonímia da Natureza com a matéria, e a concepção da matéria como composto de elementos irredutíveis, analiticamente dedutíveis e empiricamente comprováveis, ainda hoje dominam as teorias das ciências naturais. A física, a química, a astronomia, a mecânica, a fisiológica, a biologia tiveram grande impulso teórico e prático durante mais de dois séculos, a partir dessas características de racionalidade. Da mesma forma que as matemáticas ou as “disciplinas aplicadas”, como a medicina, e a tecnologia (33). Grande impulso diferenciador, especializado, mesmo ao nível das disciplinas. A visão universal mecanicista, que pode levar a uma certa repetição de modelos teóricos nas disciplinas, não deve ser vista como uma Síntese epistêmica, como a da teologia racional da Idade Média. Em primeiro lugar, não há uma unidade entre os “reinos”; ao contrário, há uma dissociação originária, entretanto, é que a Natureza mesma, sinônimo de matéria, não é unitária. A matéria é analisável, no sentido da química, isto é, redutível a seus elementos simples, da mesma forma que os conhecimentos que sobre ela se produzem. Pulverização dos discursos científicos, que corresponde à fragmentação do objeto ( Natureza, Matéria) em seus elementos constitutivos. Desenvolvimento das disciplinas naturais tradicionais, desdobramento de novas. Tal é o movimento da racionalidade moderna da época clássica. Um movimento que afirma socialmente a razão como grande produtora das verdades, isto é, como a produtora do conhecimento sobre a natureza em seus inúmeros aspectos, em suas incontáveis peças. O grande quebra-cabeça cósmico tem agora o seu ordenador: a ciência.
 
Atrás do ordenador, entretanto, está a ordem programada: a razão. Mas o plano do quebra-cabeça, seu desenho completo, não está dado a priori, como no Renascimento, pela Razão divina.
 
No início da época clássica a Divina Razão ainda está na origem da origem da ordem dos significados, não se conhece mais o plano divino, nem é tarefa para a ciência conhecer o projeto de Deus. Mais importante é, usando as próprias regras da razão, desenhá-lo, armando aos poucos, com as peças de cada disciplina, setores fragmentários do grande desenho da Natureza, admitindo as colocações erradas, os recomeços, os avanços setoriais, as perplexidades, as incertezas sobre os próprios passos.
 
Para a racionalidade moderna, a partir do século XVIII, só há uma grande certeza, um dogma: o da ciência como caminho único para a obtenção da verdade. Portanto, para o processo de sua produção.
 
As outras formas de expressão humanas de significados (ou de verdades), como as artes, a política, a moral, a filosofia, a religião, serão reordenadas social e epistemologicamente pela razão científica. Elas têm como ponto de partida comum fontes impuras para a produção do conhecimento científico: a imaginação, os sentimentos, os sentidos, as paixões, a especulação, a fé. Desde Descartes, nenhuma dessas fontes alimentará mais conscientemente a corrente da razão voltada para a ciência.
 
As categorias centrais da teoria médica de Hahnemann são as de força vital, miasma e psora. São exatamente essas categorias que são investidas de significados originais em face do sistema médico organicista. São conceitos que têm sua base disciplinar na física, na química e na medicina alopática, mas são investidos de conteúdos nocionais distintos (e divergentes) na medicina homeopática. Na verdade, sabe-se que grande parte das categorias médicas no final do século XVIII provém da física, da química e da fisiologia, recebendo na medicina conteúdos próprios ao objeto da disciplina.
 
Na homeopatia, os conceitos de “força vital”, “miasma” e “psora” destinam-se a apreender e explicar o princípio (ontológico) do processo de adoecimento dos seres vivos, a ordem (histórica) das doenças (e não sua causa) e os tipos principais de adoecimento (e não as principais doenças) dos seres humanos.
 
Aqui deve ser feita uma segunda distinção: contrariamente à medicina do século XIX, a homeopatia não emprega o princípio da causalidade eficiente das doenças, que julga inútil” para a cura dos doentes. Além disso, despreza o conceito fundamental da doença (em termos de entidade patológica). Desprezando o conceito, Hahnemann despreza também a ” substância”, a entidade mórbida, conceito fundamental da racionalidade médica desde o início do século XVII.
 
Prefere afirmar que os eventos mórbidos conhecidos como doenças nada mais são do que a expressão sintomática, visível do desequilíbrio (ou “desarmonia”) da vida. A essa expressão sintomática não corresponde nenhuma entidade. O papel da medicina é concentrar-se nessa gestalt visível exterior, mutável variável de indivíduo para indivíduo (e em cada indivíduo, ao longo de sua vida), para eliminar o processo mórbido como um todo, sem buscar causas nem entidades.
 
Não deixa de ser impressionante esse olhar de total de negação da doença como ser, na clínica homeopática: à gestalt sintomática, forma histórica mutante, não corresponde nada, a não ser o desequilíbrio da força vital, esse princípio imaterial da vida, postulado ontológico indemonstrável. Sua expressão exterior desarmônica é no entanto, perceptível através do conjunto dos sintomas, e prova, assim, sua existência.
 
A homeopatia é, desta forma, no início do século XIX, um sistema médico centrado na concepção e na observação da vida, através de seu princípio – força vital – manifestado nos seus desequilíbrios – eventos mórbidos. No limite, doença e morte são estágios da vida.
 
Entretanto, a anatomia patológica do século XVIII analisava a enfermidade com um olhar que se interiorizava na lesão do órgão e se aprofundar no tecido, debruçando-se sobre os corpos (dos mortos, ou dos doentes), no sentido de sediar a doença e descobrir-lhe a causa. Sintetizou-se com a fisiologia, na anatomoclínica do início do século XIX, para a qual a doença não se apresentava mais como totalidade de sintomas ou entidade de mórbida.
 
A doença só se desvelava pelo raciocínio (clínico), através da análise dos sintomas e da intuição do sintoma essencial, aquele que deixa transparecer a figura variável da doença (34).
 
Pode se ver que não somente as concepções e categorias básicas são divergentes, mas também o próprio objeto do conhecimento e o objeto da clínica dos dois sistemas médicos, o alopático e o homeopático.
 
Se a homeopatia não se apresenta (ainda) como anacrônica, ao menos está epistemologicamente deslocada em face da anatomoclínica, que avança como racionalidade médica dominante:
 
“Do início do Renascimento até o final do século XVIII, o saber da verdade fazia parte do círculo da vida que se volta sobre si mesma, e se observa; a partir de Bichat, ele é deslocado com relação à vida, e dela é separado pelo intransponível limite da morte no espelho da qual ele a contempla” (34).
 
O saber da clínica moderna, orientado pela morte (anatomia patológica), volta-se para a cauda da doença (agente patogênico) e para a origem espaço temporal (localização orgânica e história sintomática), enquanto o saber da clínica homeopática volta-se para o indivíduo desequilibrado (doente) no sentido de reparar-lhe a energia da vida (curá-lo).
 
O conceito de força vital marca, desta forma, a diferença radical entre o objeto e o objetivo do saber nas duas clínicas (35).
 
Por outro lado, a homeopatia, através de seu fundador, se interessa pela origem dos “processos mórbidos conhecidos como doenças”. Origem duplamente histórica: em relação à espécie e ao indivíduo humano. Trata-se de uma origem filogenética e ontogenética, que será explicada pelo conceito de Miasmas. O miasma é uma força imaterial infectante, sua natureza é “espiritual”.
(32) LUZ, Madel T.: – “Natural, Racional, Social: Razão Médica e Racionalidade Ci científica Moderna “. Rio de Janeiro: Editora Campus, 1988.
(33) BERNAL, J. D. “La ciência en la historia”. Ed. Nueva Imagem, Universidade Autônoma de México, 1986, 8° edição (trad. esp. de Science in History; Ed. C. A. Watts e Co., Londres, 1954). Cit. in (32) LUZ, Madel T.: – “Natural, Racional, Social: Razão Médica e Racionalidade Científica Moderna “. Rio de Janeiro: Editora Campus, 1988.
 
(34) FOUCAULT, M.: – “Naissance de la Clinique”. Paris, PUF, 1963, trad. bras.Forense Universitária, Rio de Janeiro, 1977. Cit. in (32) LUZ, Madel T.: – “Natural, Racional, Social: Razão Médica e Racionalidade Científica Moderna “. Rio de Janeiro: Editora Campus, 1988.
 
(35) JACOB, François. A Lógica da vida – uma história da hereditariedade. Ed. Graal, Rio de Janeiro, 1983 (trad. port. de La logique du vivant. Ed. Gallimard, Paris, 1970). Cit. in (32) LUZ, Madel T.: “Natural, Racional, Social: Razão Médica e Racionalidade Científica Moderna “. Rio de Janeiro: Editora Campus, 1988.
 
X- AS BASES TEORICAS E EXPERIMENTAIS DA HOMEOPATIA NA ATUALIDADE
 
Desde o IV Simpósio Internacional de Farmacologia e Terapêutica Homeopática, cujos textos publicados ressaltam uma “finalidade precípua, divulgar, estimular, principalmente, incrementar a pesquisa cientifica dentro de um estudo critico da Homeopatia como uma nova ciência”(36) vemos com grande interesse a reaproximação de forma acelerada entre a lógica da clinica homeopática e a determinação da critica cientifica atual,
 
Ao se afastar dessa mesma crítica científica há mais ou menos duzentos e vinte anos atrás, negando ser analisada pelos métodos da época para consagrar-se como nova ciência, sofreu pois um deslocamento epistemológico necessário à sua própria evolução e crescimento. Vemos-la, pois numa retomada histórica da progressão evolutiva do pensar humano submetendo-se à critica científica atual contribuindo construtivamente para iniciarmos uma nova fase do pensar humano, ou seja o pensamento integral ou a integralização do conhecimento humano (37).
Apesar da polarização deste mesmo pensamento, que se dialetizou, fragmentando-se dentro da filosofia utilitarista do mercado quais sejam mecanicismo reducionista da alopatia/vitalismo organicismo da homeopatia nas ciências as médicas, materialismo histórico/ espiritualismo das religiões, teoria corpuscular / teoria ondulatória na física moderna, materialismo dialético/positivismo nas ciências sociais, pois, um momento que esta forma viciosa de pensar se generalizar por todos os campos de especializações da ciência, como em recente trabalho publicado sobre os paradigmas da imunologia (38).
Na introdução do ” Le Journal International de Médecine”, lemos o seguinte:
 
“Um número especial do JIM sobre homeopatia! A coisa parece, não obstante, incongruente como uma máquina de costura sobre uma mesa de operação ou uma locomotiva a vapor sobre a Campos Elíseos… Ela se inscreve portanto dentro de uma lógica de evolução que pretende associar o rigor científico à curiosidade…” (39)
E continua com o mesmo tom céptico, sem querer dobrar-se a evidência da real conquista feita pela homeopatia dentro das principais revistas científicas como: o Lancet, o British Journal of Clinical Pharmacology, o British Medical Journal e outros; espaço este conquistado após a publicação por Jacques Benveniste na revista Nature, sobre a desgranulação de basófilos por altas diluições de anti IgE; que desencadeou uma avalanche imediata de críticas, não tanto por esta publicação mas pela hipótese avançada sobre a “memória da água” (ver JIM n° 117).
 
O que levaria então, um pesquisador consagrado pela crítica científica, descobridor do fator ativador de plaquetas em 1972, a arriscar seu próprio nome frente a esta mesma crítica que o consagrou? Foi o que lhe perguntamos por ocasião do III Simpósio Nacional de Pesquisas Institucionais em Homeopatia, 1991.
 
“- Foram meus resultados!!! ” respondeu ele.
 
Mas se por um lado os resultados nos motivam a romper o silêncio d’alma, no grito pessoal de deslumbramento diante da fantasia do desconhecido; há que pautar a própria realidade nas transformações das horas, para que o barulho dos escândalos não nos impeça de caminhar numa progressão continuada.
 
Com esta turbulência provocada pela falta de resultados que abordassem a hipótese ampla da memória da água”, uma vez que, no dizer de Poitevin (41): ” a metodologia em pesquisa homeopática é essencial desde que em condições, naturais dos resultados obtidos”; não tiram o mérito dos resultados evidenciados quanto a ação das doses infinitesimais sintetizados em vários trabalhos publicados e dos quais destacamos a experimentação das altas diluições sobre o animal no campo da pesquisa básica:
 
1- Publicação do European Journal of Pharmacology por E. Davenas, B. Poitevin e J. Benveniste que colocaram em evidência o aumento da liberação de PAF-acéter (fator acético de ativação de plaquetas) pelos macrófagos peritoniais de camundongos submetidos à ingestão de sílica muito diluída, mostrando a eficácia farmacodinâmica das doses infinitesimais, restando compreender o mecanismo deste efeito (42).
 
2- Estudo da cinética de eliminação de arsênico em cobaias pré-intoxicadas sobre a influência de diluições deste mesmo tóxico, tendo sido efetuado pela primeira vez por C. Lapp (43) e mais recente por J.C. Cazin (44) tendo já feito outro trabalho anteriormente com sua equipe que atestam que as doses infinitesimais de arsênico são suscetíveis – dentro deste modelo de aumentar a eliminação deste mesmo tóxico injetado em doses maciças, ficando ainda por esclarecer o mecanismo de ação do medicamento.
 
Dentro do campo da pesquisa clínica, se numerosos são ainda os que admitem a operacionalização do efeito placebo obtido graças a simples prática homeopática; começamos a ver os pesquisadores e cientistas, ao exemplo de Benveniste, que tentam apoderar de um fenômeno biológico que possa levar a conclusão da atividade dos produtos homeopáticos que não se limitam apenas ao efeito do placebo.
 
Os resultados de estudos clínicos realizados sobre tratamento homeopático confrontam-se contraditórios: positivos dentro da poliartrite reumatoide (46)e da fibrosite (47). Eles são também, as vezes, inesperados quando a aspirina altamente diluída favorece a coagulação. Apesar do trabalho “Controlled clinical trial of homeopathy in postoperative ileus”(49) ter colocado em xeque a terapêutica por seus resultados negativos, não foram de desiludir aqueles outros que se referem ao tratamento de síndromes de resfriados (50) e a febre do feno (51).
 
(36) CORRADO, A.P: Estudo crítico da homeopatia como nova ciência. Ciência e Cultura SBPC, set., 1985, vol. 37, N 9,pp. 1452-85.
(37) SCHRODINGER, E-Interview dans P Observer, janvier 1931, édition de l’ Académie de Vienne, op, cit,, vol. 4, p. 333 citado em (1) SCHRODINGER, Erwin: “L esprit et la matiére ” précédé de “L’ Elision”, 1990 27,rue Jacob, Paris VI e,255 págs, 1 vol., traduction, notes et essai liminaire par Michel Bitbol; ” Mind and Matter” Cambridge University Press 1958 pag. 145 Editions du Seuil, Janvier,
 
(38) STEWART, J.; VAZ Nelson:- Os dois paradigmas da imunologia, Ciência e Cultura SBPC, set., 1990,vol. 42, N° 9.pp. 678-683.
 
(39) JIM: – L’homéopathie a la recherche d’une preuve, Le Journal International de Médécine, Supplément, n° 136, septembre, 1989.pp 3.
 
(40) BENVENISTE, J.; HENSON, P.M.; and COCHRANE C.G. Leucocyte-dependent histamine release from rabbit platelets: the role of IgE, basophils, and a platelet activating factor. J. Exp. Med. 1972: 136: 13561377
 
(41) POITEVIN, Bernard: – Introduction à l’ Homeopathie Bases expérimentales et scientifiques, CEDH, France, 1990. – Methodology and critical aspects of homeopathic research, Anais do III Simpósio Nacional de Pesquisas Institucionais em Homeopatia, Uberlândia MG, 28 a 30 de novembro de 1991.
 
(42) DAVENAS, E.; POITEVIN, B. et BENVENISTE, J. – Effect om mouse peritoneal macrophages of orally administered very high dilutions of silica.European Journal of Pharmacology,1987; 135: 313-319.
 
(43) LAPP, C.; WURMSER, L. et NEY, J. – Mobilisation de l’arsenic fixé chez le cobaye sous l’influence de doses infinitésimales d’arsenic de sodium. Thérapie, 1955 10: 626-638.
 
(44) CAZIN, J.C. et coll. – A study of the effect of decimal and centesimal dilutions of Arsenic in the rat. Human Toxicol., 1987; 6: 315-320.
 
(45) BOIRON, Jean; BELON,Ph.;ABECASSIS, J.;CAZIN, J.C; GABORIT, J.L Etude pharmacologique de la retention et la mobilisation de l’arsenic sous l’influence de dilutions hahnemaniennes d’ Arsenicum album. in Aspects de la recherche en homéopathie, vol. 1, Ed. Boiron; 1983, France.
(46) GIBSON, R.G.et coll.:Salicylates and homeopathy in rheumatoid arthritis: preliminary observations. Br. J. Clin. Pharmac.,1978; 6: 391-395.
 
(47) FISHER, P., GREENWOOD A., HUSKISSON E. C., TURNER P. BELON P.:Effect of homeopathic treatment on fibrositis primary fibromyalgia). British Medical Journal, 5 August 1989, 299, 365-366.
 
(48) DOUTREMEPUICH et coll.: – “Template bleeding time after ingestion of ultra low doses of acetylsalicylic acid in healthy subjects. Prelminary study.” Thrombosis Research, 1987; 48: 501-504. – “Platelet aggregation on whole blood after administration of ulra low dosage acetylsalicylic acid in healthy volunteers.” Thrombosis Research, 1987; 47: 373-377.
 
(49) MAYAUX, M.J. et coll.:-“Controlled clinical trial of homeopathy in postoperative ileus”. Lancet, 1988;i: 528-529.
 
(50) FERLEY, J.P. et coll.: ” A controlled evaluation of a homeopathic preparation in the treatment of influenza-like syndromes”. Br. J. Clin. Pharmacol.,1989; 27: 329-335.
 
(51) REILLY, D.S. et coll.: – “Is homeopathy a placebo response? Controlled trial of homeopathic potency, with pollen in hayfever as model”. Lancet, 1986; ii:881-886.

Siga meu blog

https://wordpress.com/block-editor/post/wagnerdeoclecianoribeiro.wordpress.com/791

e receba novos conteúdos na sua caixa de entrada.