A Homeopatia frente a Epistemologia II – Prefácio

A Revolução Filosófico-Científica Social e Espiritual

I

“A natureza especifica suas leis universais em leis empíricas, conforme à forma de um sistema lógico, com o proveito da faculdade de julgar”

Emmanuel Kant (1)

– I-

O pensamento científico baseado na metodologia do raciocínio dialético não entendeu e jamais entenderá a dinâmica do Universo sem antes remodelar a sua maneira de analisar.

Já não somos mais corpo e espirito, matéria e energia; materialismo e espiritualismo: somos um continuo dinâmico e único nas teias do Universo

Se persistirmos na metodologia científica de hoje chegaremos ao nada, ao inconcebível e as teorias cheias de formas, mas vazias de significados.

O Homem tem evoluído extraordinariamente na conquista do espaço-tempo, mas depara-se atônito frente ao contínuo espaço-tempo ou hiperespaço de Einstein, como algo não explorado.

E dentro deste algo não explorado, a Homeopatia permanece estacionária no empirismo por falta de evolução no pensamento científico. Mas se a ciência parou no tempo, a Homeopatia varou o século com maior potência e capacidade para esclarecer os escaninhos obscuros do processo biológico que evoluiu no planeta Terra.

Hahnemann lançou as bases científicas para a manifestação da energia vital através das doses infinitesimais, dos princípios elementares naturais que encontrou disperso na atmosfera terrestre utilizando a experimentação no homem são.

A Homeopatia nos dá, pois, a noção essencial que não viveremos no planeta terra e não faremos aqui nossa morada, se não agirmos urgentemente revertendo desequilíbrio ecológico, e reascendendo a valorização de todos os seres vivos como parte integrante da dinâmica energia vital ou perispírito do planeta Terra.

A exploração da natureza pelo homem de forma gananciosa, os grandes cifrões, o desequilíbrio energético, a poluição do ar, água e terra e a exploração do homem pelo próprio homem num egoísmo “selvagem”, tolhe a fluidez da vida no planeta.

Somente a valorização do homem pelo próprio homem situando-se com sua inteligência nas leis naturais, poderá reverter este processo usando uma arma que poderá reascender a esperança.

Esta arma é a Homeopatia…

Uma proposta para a integração filosófico-científicao-social espiritual.

(1)KANT, Emmanuel – “Critique de la faculté de juger suivi de Idée d’une histoire universelle au point de vue cosmopolitique et de Repouse à la question: Qu est-ce que les lumières. Editions Gallimard, Paris, 1985561 págs. I vol

O CONHECIMENTO CIENTÍFICO ATUAL E A HOMEOPATIA

-II-

 Gostaria de tecer algumas observações que pudessem de certa forma esclarecer alguns pontos obscuros dentro da lógica da pesquisa científica, que incapaz de lidar com eventos de sua própria evolução, tem se tornado como ciência normativa, um obstáculo epistemológico à evolução do próprio pensar humano, dentro de um processo natural de integralização deste pensar, pelo qual o mundo passa atualmente.

O pensamento científico baseado na metodologia do raciocínio dialético não entendeu e jamais entenderá a dinâmica do Universo, sem antes remodelar a sua forma de análise lógica, não mais sobre uma ótica mecanicista newtoniana, mas sobre bases mais dinâmicas, quais sejam as da física quântica e a teoria da relatividade.

“Esboçado por Parmênides, Platão e Kant, dentro de um contesto que nós qualificamos hoje em dia como filosófico; a idealização do tempo encontra seu desfecho provisório na física contemporânea, através do desenvolvimento da relatividade e da mecânica estatística” (2).

Já não somos mais corpo e espírito; matéria e energia; somos um contínuo dinâmico e único nas teias do Universo; e foi com o progresso desta ultima teoria que fez crer à Schrödinger que ele estava em direito de afirmar “que a teoria física atual sugere fortemente a indestrutibilidade do Espírito pelo tempo “(3). Toda a nuância é bem entendida dentro do verbo sugerir, e dentro do reconhecimento prévio “que a teoria física é sempre relativa, na medida de que ela depende de certas hipóteses de base” (3).

Apesar destas duas reservas, o espetacular destino do tempo, termina por deixar romper o fundo da eternidade de, a partir do qual ele se edifica, e é exemplificado. Ele se mostra como, em reconhecendo progressivamente uma certa matriz do pensar sobre sua própria armadura de pressupostos e conceitos. As ciências se metem em meios de aproximar progressivamente às intuições da filosofia perene.

O poder do pensamento, aflorando dentro da constituição de cada nova percepção do conhecimento, constitui o traço do sujeito ausente e fundador, o sinal super- determinado de sua identidade com o mundo. O sujeito não necessita somente de se ver atribuir um lugar, em suma ilusório, dentro da descrição teórica, nem se submeter aos paradoxos de uma improvável projeção dentro do mundo dos objetos, para deixar pressentir sua extrema proximidade.

É de fato esta proximidade, vista esta coexistensividade com o Universo, que tomo uma contrapartida de uma afirmação de Einstein, tornando compreensível que a natureza seja compreensível: “Não é nada surpreendente para mim, que o homem seja apto a descobrir as leis pelas quais a natureza funcione. Nós não poderemos falar da natureza como qualquer coisa distinta do espírito”(4).

E é justamente devido a persistência de se pensar fora de uma concepção unificadora, de uma unidade, que coloca a ciência na incapacidade de elevar-se a sistema filosofia, dando-nos uma concepção de Vida. De um lado, as filosofias institutivas, de outro, uma ciência puramente objetiva, caminhando por estradas opostas, e com metas diferentes, mantendo separados o abstrato do real, eram insuficientes para conseguir a síntese completa, fundindo os dois extremos: intuição e razão; revelação e ciência (5).

Pelo método que se baseia, a ciência é inepta para descobrir as íntimas ligações que unem as coisas e delas revelar a essência. E se persistirmos na metodologia científica de hoje, fragmentária e dispersiva, chegaremos ao nada, ao inconcebível e às teorias cheias de formas, mas vazias de significados, como bem colocou Paul Feyerabend (6) , quando tece dúvidas frente as bases da metodologia científica, colocando que a Ciência não possui alguma característica intrínseca que lhe renda superioridade frente aos outros braços do saber.

A escolha entre as teorias reduz-se à escolha determinadas pelos valores subjetivos e os desejos dos indivíduos os. Sou da mesma opinião de Alan F. Chalmers (7) que opõe à falência das teorias tradicionais desenvolvidas por Feyerabend, para fazer prevalecer uma concepção da física que não é nem subjetivista nem individualista, mas que integre numerosos elementos da crítica do método de Feyerabend, tudo em escapando desta mesma crítica.

É como diz ainda, Fritjof Capra (8), “o fato de as atuais mudanças em nosso sistema de valores afetarem muitas de nossas ciências pode parecer surpreendente aos que acreditam uma ciência objetiva, livre de valores. Esta é, no entanto, uma das implicações importantes da nova Física. Enquanto, na Física clássica, as propriedades e o comportamento das partes determinam as propriedades e o comportamento do todo, na Física quântica a situação é a inversa: o todo é que determina o comportamento das partes.”

A probabilidade é, portanto, utilizada na Física clássica e na quântica por motivos semelhantes. Em ambos os casos existem variáveis “ocultas”, desconhecidas por nós, e essa ignorância nos impede de fazer predições exatas.”

Há, no entanto, uma diferença crucial. Enquanto, na Física clássica as variáveis ocultas são mecanismos locais, na Física quântica elas são não-locais; são conexões instantâneas com o universo como um todo. No mundo cotidiano, macroscópico, as conexões não-locais têm, relativamente, pouca importância. Podemos, por isso, falar em termos de certezas. A medida, porém, que nos aproximamos de dimensões menores, a influência de conexões não-locais de dimensões torna-se mais intensa, as certezas vão cedendo lugar ás probabilidades e torna-se cada vez mais difícil separar do todo qualquer parte do universo” finaliza Capra (9).

“As contribuições de Heisenberg à teoria quântica implicam claramente que o ideal clássico de objetividade científica não pode mais ser sustentado. Passamos por uma crise que se impõe uma profunda reflexão epistemológica sobre os pressupostos desta mesma objetividade que destruiu o pressuposto objeto analisado para deixar como resultado uma lacuna de métodos anteriores, que necessariamente te deverão ser ultrapassados pela invenção de novos método dos vinculados à sensibilidade do observador, seu entendimento, sua faculdade de julgar e sua razão” (10).

Assim, a Física moderna também está desafiando o mito de uma ciência livre de valores. Os padrões que os ci cientistas observam na natureza estão intimamente relaciona dos com os padrões das suas mentes, com os seus conceitos, pensamentos e valores. Por isso, os resultados científicos que obtêm e as aplicações tecnológicas que investigam esta rão condicionados pela estrutura de suas mentes.

Embora grande parte de suas pesquisas detalhadas não seja explicitamente dependente dos seus sistemas de valores, a estrutura mais abrangente dentro da qual essas pesquisas são efetuadas nunca será independente de valores. Os cientistas, portanto, são responsáveis, não apenas intelectual mas moralmente, por suas pesquisas.

A filosofia das ciências tem uma história. Francis Bacon foi um dos primeiros a tentar formular o que é hoje o método da ciência moderna. No começo do século XVII, ele afirma que a ciência visa a melhora do destino do homem sobre a terra, e que isso poderia ser atendido em se reunindo os fatos por uma observação metódica através ou em decorrência das teorias. Depois disto, a teoria de Bacon foi modificada e melhorada por uns, combatida de uma maneira radical por outros. Uma descrição histórica e uma explicação do desenvolvimento da filosofia das ciências apresenta-se de um grande interesse.

O Homem tem evoluído extraordinariamente na conquista do espaço-tempo, mas se depara atônito, frente ao contínuo espaço-tempo ou hiperespaço de Einstein, como algo não explorado e mal compreendido.

O problema que se coloca, é que a filosofia ou a metodologia das ciências não é mais do que uma ajuda aos científicos. Retrospectivamente, a função mais importante deste questionamento que tentarei colocar aqui, é de combater aquilo que podemos chamar de ideologia da ciência, tal como funciona dentro de nossa sociedade.

Esta ideologia utiliza de conceitos duvidosos de ciência e de conceitos igualmente duvidosos de verdade, que são seguidos associados, em geral, depois de uma posição conservadora, segundo a visão de Alan F. Chalmers (11). Como exemplo, cita ele ainda que, a forma de psicologia behaviorista que tenta tratar os homens como máquinas ou ainda a utilização intensiva dos resultados de QI dentro de nosso sistema de ensino, defendido em nome da ciência.

Os argumentos para defender este tipo de disciplina, continua ele, se funda sobre o fato que eles foram formulados pelo meio de “métodos científicos”, os quais lhes confere mérito. Os políticos de direita não exitam de utilizar esta categoria de ciência e método científicos. Os marxistas se referendam igualmente, assim que se obstinam em provar que o materialismo histórico é uma ciência.

As categorias gerais da ciência e do método científico são ainda utilizados para eliminar ou suprimir dos domínios de estado. Por exemplo, Popper ataca o marxismo a psicologia adlériana, sobre o pretexto de que eles não são conformes à sua metodologia falsificacionista; Lakatos invoca sua metodologia de programas de pesquisa científica para partir em cruzada contra o marxismo, a sociologia contemporânea, e de outras formas de “poluição intelectual ” finaliza Chalmers.

Está claro, doravante para ele que considera au não existe a concepção eterna e universal da ciência ou do método científico que possa servir de alvo ilustrativo ao pa rágrafo precedente. Segundo ainda ele, não dispomos de al gum meio que nos permita atender a este estado e defender uma tal perspectiva. Nada nos autoriza a integrar ou rejeitar os conhecimentos em razão de uma conformidade com qual quer um critério dado como científico. Esta via é semeada de emboscadas. Se, por exemplo, nossa visão é de nos pro nunciar de maneira esclarecedora sobre esta ou aquela ver são do marxismo, nós deveremos nos interrogar sobre o alvo, saber que medida eles serão atendidas e conhecer as forças ou os fatores que agem sobre seu desenvolvimento. Nós po teremos então, avaliar se é porque são conhecidos e deseja dos, avaliar a que pontos seus métodos lhe permite atender seus objetivos e julgar os interesses que eles servem.

E ainda Chalmers (12) indaga, a que interesses servem a metodologia científica que dá base à clínica moderna racionalista de hoje, que insiste cada vez mais, na intervenção medicamentosa como forma de derrotar a doença, assumindo uma postura conservadora diante do método reducionista, de decompor o objeto em elementos, comparando, por uma ope ração analítica, esses elementos entre si, ordenando-os num totalidade racionalmente montada e hierarquicamente recomposta, permanece dominante na maioria das disciplinas sobretudo nos grandes ramos das ciências mais próximas da vida humana: a biologia e a medicina.

E dentro desta posição conservadora, desse algo não explorado e mal compreendido, há um ramo do saber que per manete estacionária no empirismo por falta de evolução da metodologia do pensamento científico de forma integrada e integral.

Este ramo do saber envolve uma arte de curar e possui um instrumento lógico escrito há quase duzentos anos, que consagrou a Homeopatia como terapêutica da infinitesimalidade de base experimental. Mas, se a ciência parou no tempo, a Homeopatia varou o século com maior potência e capacidade para esclarecer os escaninhos obscuros do processo biológico que evolui no planeta Terra.

Será um dos objetivos deste livro, colocar as utilizações ilegítimas da ciência e do método científico que contribuíram para o esquecimento e a negação da Homeopatia como método terapêutico de base científica própria.

Espero que possa ainda contribuir para conter as reações extremas, individualistas ou relativistas frente a ideologia da ciência, que tanto tem contribuído para corroer a unicidade do conhecimento científico e consequentemente homeopático, dentro da multiplicidade de eventos que estes conhecimentos abarcam.

Não é verdade que todo ponto de vista seja bom. Por dispor de meios de transformar uma situação, que se trate do desenvolvimento de um ramo do saber ou de um aspecto da sociedade, a melhor forma de proceder, na concepção de Chalmers 3, consiste em aprender a situação e ministrar os meios desta transformação. Esta ação se fará geralmente pela cooperação.

Por isso pretendo utilizar o conhecimento científico e sua metodologia atual para em colaborando com a Homeopatia, reinseri-la na lógica do conhecimento cientifico ressuscitando a Homeopatia cientifica, dentro de uma lógica do conhecimento humano que se volta para o observador ou da observação como num ato de auto-conhecimento do ser vivente, do sujeito da ação. A política de que “tudo é bom”, interpretada dentro de um sentido mais geral que aquela que visava provavelmente Feyerabend, deverá ser combatida porque ela nos reduzirá à impotência.

A lógica reducionista da metodologia cientifica atual tem se mantido em quase todo campo do conhecimento cientifico. Desde a física clássica com a desintegração do átomo até a medicina na dissecção do corpo, a lógica da decomposição que reduz o Universo em partes para tecer uma teoria absurdo do caos que explique na sua ignorância harmonia funcional do Universo como um todo.

Aonde estaria pois, o erro epistemológico que dei xou a lógica se perder no método e se confundir com o objeto observado sem dar ao observador a sua importância como sujeito da historia do conhecimento humano? Acredito que ao interpormos o conhecimento cientifico atual e a homeopatia reconstruindo sua epistêmese, poderemos clarificar a historia da lógica do ser vivente, o ser presente na vida e na História.

(2) SCHRODINGER,Erwin: – “L’esprit et la matiére “précédé de “L Élision”, Éditions du Seuil, Janvier, 1990; 27,rue Jacob, Paris VI e,255 págs,1 vol., traduction, notes et essai liminaire par Michel Bitbol; ” Mind and Matter” Cambridge University Press 1958

(3) SCHRODINGER, E.:- interview dans l’Observer, janvier 1931, édition de l’ Académie de Vienne, op. cit., vol. 4, p. 333 citado em (2) pag. 145.

(4) SCHRODINGER,Erwin: – “L’ esprit et la matiére” précédé de “L’ Élision”, Éditions du Seuil, Janvier, 1990; 27,rue Jacob, Paris VI e,255 págs, 1 vol., traduction, notes et essai liminaire par Michel Bitbol; ” Mind and Matter” Cambridge University Press 1958

(5) UBALDI, P.:- “A Grande Síntese -Síntese e Solução dos Problemas da Ciência e do Espírito” vol. 2,16° ed., Fundapu, 1988.

(6) FEYERABEND, Paul K.: – “Contre la méthode, Esquisse d’une théorie anarchiste de la connaissance”. trad. Baudouin Jurdant et Agnès Schlumberger, Seuil Paris, 1979.

(7) CHALMERS, Alan F.:- “Qu’ est-ce que la science? Récents développements en philosophie des sciences: Popper, Kuhn, Lakatos, Feyerabend “Éditions La Découvert,1987; 238 p.gs., 1 vol.

(8) CAPRA, Fritjof: – “O Tao da Física Um Paralelo Entre a Física Moderna e o Misticismo Oriental”: Editora Cultrix, São Paulo, 1988

(9) CAPRA, Fritjof.: – “O Tao da Física Um Paralelo Entre a Física Moderna e o Misticismo Oriental”; Editora Cultrix, São Paulo, 1988

(10) KANT,Emmanuel: “Critique de la faculté de juger suivi de Idée d’ une histoire universelle au point de vue cosmopolitique et de Réponse à la question: Qu’ est-ce que les lumières?”. Editions Gallimard, Paris, 1985; 561págs; 1 vol

(11) CHALMERS, Alan F.:- “Qu’ est-ce que la science? Récents développements en philosophie des sciences: Popper, Kuhn, Lakatos, Feyerabend “Éditions La Découvert, 1987; 238 págs, 1 vol.

(12) CHALMERS, Alan F.:- “Qu’ est-ce que la science? Récents développemer philosophie des sciences: Popper, Kuhn, Lakatos, Feyerabend “Éditions 1 Découvert, 1987; 238 págs, 1 vol.

(13) CHALMERS, Alan F.:- “Qu’ est-ce que la science? Récents développements en philosophie des sciences: Popper, Kuhn, Lakatos, Feyerabend “Éditions La Découvert, 1987; 238 págs, 1 vol.

A EPISTÊMESE E A HOMEOPATIA

-III-

A Epistemologia, ou teoria do conhecimento, é a principal subdivisão da Filosofia, e compreende basicamente te duas investigações: a da fonte do conhecimento e a de sua extensão. Na primeira, procura-se determinar em que se fundamenta o conhecimento que adquirimos. Na segunda, aborda-se a questão dos limites do conhecimento, daquilo que pode ou não ser conhecido.

Ao longo da história da Filosofia, estes dois problemas epistemológicos quase nunca foram tratados separadamente. Todavia, para fins didáticos, podemos efetuar a distinção, e classificar as doutrinas epistemológicas em dois grupos principais, conforme se ocupem de um ou de outro desses problemas.

No primeiro grupo, há essencialmente duas posi ções antagônicas sobre as origens e fundamentação do conhecimento:

1- Empirismo: sustenta que todo conhecimento se baseia e se adquire através do que se apreende pelos sentidos. Admite-se, além dos sentidos “externos” (visão, audição, tato, olfato e paladar), a participação dos sentidos “internos”(introspecção), que nos permite conhecer os nossos sentimentos, estados de consciência e memória. Como quase toda doutrina filosófica, o empirismo encontra raízes na Grécia Antiga, entre os filósofos da tradição jônica, cujo principal representante foi Protágoras. Essa doutrina ganhou novo ímpeto com a revolução científica do século XVII, e seus principais defensores foram os filósofos John Locke (1632-1704), George Berkeley (1685-1753) e David Hume (1711-1776).

2 – Racionalismo (ou Apriorismo): mantém que as fontes do verdadeiro conhecimento encontram-se não nas instáveis e subjetivas impressões dos sentidos, mas na razão. Também defendida na antiguidade grega, pelos filósofos da escola eleática ( Parménides ), por Platão e pelos atomistas (Leucipo, Demócrito). Na era moderna, seu principal expoente foi René Descartes (1596-1650), que pretendeu erigir todo o edifício do conhecimento sobre a famosa proposição cogito, ergo sum.

Evidentemente, muitos filósofos admitiram a participação tanto dos sentidos como da razão na justificação do conhecimento, de modo que algumas proposições seriam conhecidas pela experiência (empiricamente) e outras a priori (sem o concurso da experiência). O mais notável representante desta posição epistemológica intermediária foi o filósofo alemão Immanuel Kant (1724 – 1804); segundo seu sistema, não só a Lógica, e Aritmética, a Álgebra, a Geometria eram conhecidas a priori, mas também as próprias leis da dinâmica newtoniana, até então tidas como assentadas na experiência.

Como resultado das profundas transformações por que passou a Física em nosso século, mesmo as formas mais atenuadas de racionalismo perderam muito a sua plausibilidade, o que consolidou a posição empirista. Não somente as leis de Newton foram reconhecidas insatisfatórias e superadas pelas teorias da relatividade de Einstein, mas também a própria geometria euclidiana, tida como modelo de conhecimento a priori, cedeu lugar a outros sistemas geométricos.

Será pois, com Bachelard (14) que critica o sistema filosófico por não levar em conta a sua finalidade íntima e espiritual que lhe dá vida, força e clareza; e coloca a filosofia dos cientistas, a ciência como sempre inacabada; sendo estados do espírito científico em detrimento da unidade que caracteriza o pensamento filosófico, veremos com ele, que enquanto para o cientista, a filosofia das ciências está ainda no reino dos fatos, para o filósofo, esta filosofia nunca está totalmente no reino dos fatos. Coloca pois, que a filosofia das ciências fica cantonada nas duas extremidades do saber: para os filósofos em princípios muito gerais e para os cientistas em resultados muito particulares. Enfraquece-se contra os dois obstáculos epistemológicos contrários que limitam todo o pensamento: o geral e o imediato. Ora valoriza o a priori, ora o a posteriori, abstraindo das transmutações de valores epistemológicos que o pensamento científico contemporâneo permanentemente opera entre a priori e o a posteriori, entre os valores experimentais e os valores racionais.

Bachelard (15) propõe, então, uma formulação das condicas da síntese do saber, pois, “ não se é filósofo se não se tomar consciência, num determinado momento da reflexão, da coerência e da unidade do pensamento”.

Por outro lado vemos Hahnemann (16) objetivar esta mesma unidade do pensamento quando se refere ao indivíduo dotado de razão que serve-se da energia vital de forma autocrática garantindo o pleno funcionamento de todos seus órgãos de forma harmônica para que possa cumprir seus mais altos fins da existência.

Para Bachelard (15) o valor de uma lei empírica prova-se fazendo dela a base de um raciocínio. Legitima-se um raciocínio fazendo dele a base de uma experiência. A ciência tem necessidade de uma filosofia com dois pólos, um desenvolvimento dialético, porque cada noção se esclarece de uma forma complementar segundo dois pontos de vista filosóficos diferentes. Ele tenta pois, a partir do movimento epistemológico, caracterizar a filosofia da ciência física contemporânea no sentido de um racionalismo que se contrapõe a um irracionalismo insondável do fenômeno para firmar uma realidade. Este racionalismo científico quer aplicar-se, se aplica mal, modifica-se. Não nega por isso os seus princípios, dialetiza-os. A filosofia da ciência física é talvez, a única filosofia que se aplica determinando uma superação de seus princípios. Em suma, ela é a única filosofia aberta. Qualquer outra filosofia coloca os seus princípios como intocáveis, as suas verdades primeiras, como totais e acabadas.

Hahnemann (17) parte de uma lei empírica, lei dos semelhantes, provando as substâncias que encontrava na na natureza, principalmente substancias tóxicas, legitima seu raciocínio partir da experiência no filosofia da ciência da cura no sentido de um racionalismo que se contrapõe uma irracionalidade da medicina da época para firmar uma mesma realidade. E este racionalismo científico se aplica modificando-se.

Hahnemann (17) evolui sem negar seus princípios, mas supera estes princípios, sendo sempre uma filosofia aberta antes mesmo da filosofia da ciência física como coloca Bachelard (18).

Um problema mal colocado, continua Bachelard (19) tanto pelos cientistas como pelos filósofos o problema da estrutura e da evolução do espírito. O cientista pensa partir de um espírito sem estrutura, sem conhecimento; filósofo apre senta a maior parte das vezes, um espírito constituído de to das as categorias indispensáveis para compreensão do real.

Para o cientista, segundo ainda ele, o conhecimento sai da ignorância; não vê que a ignorância é um tecido de erros positivos, não vê que as trevas espirituais têm uma estrutura e que nestas condições, toda experiência objetiva correta deve implicar sempre a correção de um erro subjetivo. O espírito científico só se pode construir destruindo o espírito não científico. Muitas vezes o cientista entrega-se a uma pedagogia fracionada enquanto o espírito científico deveria ter em vista uma reforma subjetiva total. Todo progresso real no pensamento científico necessita de uma conversão. Os progressos do pensamento científico contemporâneo determinaram transformações nos próprios princípios do conhecimento.

Por isso com as transformações nos próprios princípios do conhecimento será possível uma reinserção epistemológica do pensamento hahnemanniano que ao se construir enquanto espírito científico levará inexoravelmente à destruição do espírito não científico dentro da medicina contemporânea.

Para o filósofo, por profissão, encontra em si verdades primeiras, o objeto tomado em bloco não tem dificuldade em confirmar princípios gerais, uma vez que as perturbações, as flutuações, as variações também não o perturbam, pois ou ele as despreza como pormenores inúteis, ou as amontoa, para se convencer da irracionalidade fundamental do dado, afirma ainda Bachelard (20). O espírito vive uma única evidência. Não tenta criar para si outras evidências. A identidade do espírito no eu penso é tão clara que a ciência desta consciência clara é imediatamente a consciência de uma ciência, a certeza de fundar uma filosofia do saber. A consciência da identidade do espírito nestes conhecimentos diversos dá-lhe, a ela e só a ela, a garantia de um método permanente, fundamental, definitivo.

Interroga Bachelard (20), então, que perante um tal sucesso, como colocar a necessidade de modificar o espírito e de ir em busca de novos conhecimentos? Para o filósofo, as metodologias, tão diversas, tão móveis nas diferentes ciências, revelam apesar disso, de um método inicial que deve dar forma a todo saber, que deve tratar da mesma forma todos os objetos. Sendo assim, uma tese como esta de Bachelard, que considera o conhecimento como uma evolução do espírito que aceita variações respeitantes a perenidade do eu penso, deve perturbar o filósofo.

Bachelard (20) coloca, pois, a filosofia do conhecimento científico, como filosofia aberta, como a consciência de um espírito que se funda trabalhando sobre o desconhecido procurando no real aquilo que contradiz conhecimentos anteriores. E enfatiza, que a ciência instrumentada como transcendência da ciência da observação natural, denunciando uma rotura entre o conhecimento sensível e o conhecimento cientifico. Lemos a temperatura num termômetro, não a sentimos. Sem teoria nunca saberíamos se aquilo que vemos e aquilo que sentimos correspondem ao mesmo fenômeno, exemplifica ainda ele.

A objetividade da verificação na leitura de índice designa como objetivo o pensamento que se verifica. O realismo da função matemática substitui-se rapidamente à realidade da curva experimental. Preconiza, então, que a microfísica postula um objeto para além dos objetos usuais. Existe pois, pelo menos, uma rotura, na objetividade e é por isso que Bachelard tem razões para dizer que a experiência nas ciênci as físicas tem um além, uma transcendência, que ela não está fechada em si própria. Portanto, o racionalismo que informa esta experiência deve aceitar uma abertura correlativa desta transcendência empírica. A filosofia criticista deve ser modificada em função desta abertura. Mais simplesmente, dado que os quadros de entendimento devem ser tornados flexíveis e alargados a psicologia do espírito científico deve ser construída em novas bases. A cultura científica deve determinar modificações profundas do pensamento.

Somente aí, quando houver estas modificações profundas do pensamento é que poderemos inserir um pensamento filosófico mais completo, quando pois, a humanidade dominar a razão objetivada a tal ponto em que criará necessidades próprias além do objeto material, e a transcendência a este objeto se fará como um imperativo racional para a explicação da existência deste mesmo objeto. E se colocarmos este objeto como sendo o corpo humano, teremos a Homeopatia como a terapêutica do imponderável ligando o geral ao imediato numa linha filosófica do autoconhecimento, aonde a razão dominando a casa aonde foi inserida, poderá transcender na arte do observar a sua similitude exteriorizada nas leis empíricas da natureza.

Assim o sistema filosófico levará em conta a sua finalidade íntima e espiritual que lhe dá vida, força e clareza. E quanto à filosofia dos cientistas, a ciência evolui para para um sentido moral de servir a humanidade na transcendência da unidade do espírito. E os estados do espírito científico formarão não mais uma teoria absurda do caos permanente, em detrimento da unidade que caracteriza o pensamento filosófico, mas com este transcenderá à unida de harmônica do pensar integral. Este pensar como na definição de Bachelard (21), “ora valoriza a priori, ou a posteriori, abstraindo das transmutações de valores epistemológicos que o pensamento científico contemporâneo permanentemente opera entre a priori e o a posteriori, entre os valores experimentais e os valores racionais. Propõe, então, uma formulação das condições da síntese do saber, pois, ” não se é filósofo se não se tomar consciência, num determinado momento da reflexão, da coerência e da unidade do pensamento”.

(14) (15) BACHELARD, Gaston: -“A Filosofia do Não” “O Novo Espirito Científico” e – “A Poética do Espaço”. Abril Cultural, 1974.

(16) (17) HAHNEMANN, C. F. Samuel: – “Organon da Arte de Curar”. São Paulo, Gráfica Editora Ltda., 2° edição em português da 6° edição alemã, 1981

(18) BACHELARD, Gaston:- “A Epistemologia”. Edições 70 O Saber da Filosofia, 1971

(19)(20)(21) BACHELARD, Gaston:-“A Filosofia do Não Novo Espirito Científico” “A Poética do Espaço”. Abril Cultural, 1974.

A FILOSOFIA E A HOMEOPATIA

-IV-

Bachelard (21) passa a definir então, a filosofia das ciências como uma filosofia dispersa, como uma filosofia distribuída. Inversamente, o pensamento científico surgir-nos-á como um método de dispersão, bem ordenado, como um método de análise aprofundada, para os diversos filosofemas massivamente agrupados nos sistemas filosóficos.

Os diferentes problemas do pensamento científico deveriam pois receber diferentes coeficientes filosóficos. Em particular, o grau de realismo e de racionalismo não seria o mesmo para todas as noções. E pois ao nível de cada nocão que, na opinião Bachelard (22), se colocariam as tarefas precisas da filosofia das ciências. Cada hipótese, cada problema, cada experiência, cada equação reclamaria a sua filosofia. Dever-se-ia criar uma filosofia do pormenor epistemológico, uma filosofia científica diferencial que contrabalançaria a filosofia integral dos filósofos. Esta filosofia diferencial estaria encarregada de analisar o devir de um pensamento. Em linhas gerais, o devir de um pensamento científico corresponderia a uma normalização, à transformação da forma realista em forma racionalista… Esta transformação nunca é total. Nem todas as noções estão no mesmo estádio das suas transformações metafísicas, meditando filosóficamente sobre cada noção, ver-se-ia também mais claramente o caráter polêmico da definição adaptada, tudo o que esta definição distingue, delimita, recusa. As condições dialéticas de uma definição científica diferente da definição usual surgiriam então mais claramente e compreender-se-ia, no pormenor das noções aquilo a que Bachelard chamou de a filosofia do não.

Bachelard (22) parte de uma filosofia dispersa, sendo a única filosofia capaz de analisar prodigiosa complexidade do pensamento científico moderno e desenvolve um problema epistemológico específico, estudando os esforços de abertura do pensamento científico ao nível da substância, onde poderia partir da física clássica, utilizando uma noção filosófica que funcionou corretamente na ciência newtoniana e que no entender dele, é necessário abrir para produzir a sua função correta na ciência química de amanhã e que com argumentos para um não-realismo, para um não-materialismo onde a substância química será como uma peça de um processo de distinção; o real será representado como um instante de uma realização bem conduzida. O não-realismo (que é um realismo) e o não-kantismo (que é um racionalismo) tratados simultaneamente a propósito da noção de substância surgirão, na sua oposição bem ordenada, como espiritualmente coordenados. Entre os dois pólos do realismo e do kantismo clássicos, nascerá um campo epistemológico intermediário particularmente ativo. A filosofia do não surgirá pois, não como uma atitude de recusa mas como uma atitude de conciliação. De uma forma mais precisa, a noção de substância ou a noção do corpo humano, tão duramente contraditória quando captada na sua informação realista por um lado e na sua informação kantiana por outro, será claramente transitiva na nova doutrina do não-substancialismo ou da doutrina da energia vital. A filosofia do não permitirá resumir, simultaneamente, toda a experiência e todo pensamento da determinação de uma substância. Uma vez a categoria aberta, ela será capaz de reunir todos os matizes da filosofia química contemporânea. O segundo domínio a propósito do qual propõe Bachelard (23) um alargamento da filosofia do pensamento científico, será a intuição. Que ao mostrar a intuição natural não é mais do que uma intuição particular e que associando-lhe as justas liberdades de síntese, se compreende melhor a hierarquia das ligações intuitivas. Bachelard (23) mostra a atividade do pensamento científico na intuição trabalhada.

E será, pois, sobre esta intuição trabalhada que faremos as possíveis inserções do pensamento hahnemanniano dentro da lógica do conhecimento possibilitando uma abertura na metodologia científica atual integrando-a de forma a filosofar globalmente com a ciência

(21)(22)(23) BACHELARD, Gaston:-“A Filosofia do Não Novo Espirito Científico” “A Poética do Espaço”. Abril Cultural, 1974.

A LÓGICA E A HOMEOPATIA

-V-

Finalmente, abordarei o terceiro domínio: o domínio lógico. Bastará algumas poucas referências à atividade científica para mostrar que os quadros mais simples do entendimento não podem substituir na sua inflexibilidade, se pretender analisar os destinos novos da ciência. A razão ortodoxa pode ser dialetizada em todos os seus princípios através de paradoxos.

Relembrando ainda que a filosofia do não de Bachelard (24), não é psicologicamente um negativismo, e que ela não conduz, face à natureza, a um niilismo. Pelo contrário, ela procede em nós e fora de nós, de uma atividade construtiva. Ela afirma que o espírito é, no seu trabalho, um fator de evolução. Pensar corretamente o real, é aproveitar as suas ambiguidades para modificar e alertar o pensamento.

Dialetizar o pensamento é aumentar a garantia de criar cientificamente fenômenos completos, de regenerar todas as variáveis degeneradas ou suprimidas que a ciência, como o pensamento ingênuo, havia desprezado no seu primeiro estudo.E com isto, integrar a lógica do conhecimento Humano utilizando a Homeopatia como base e instrumento desta integralização, que recompõe a partir do método do cientificismo atual uma nova lógica para o novo espírito científico.

(24) BACHELARD, Gaston:-“A Filosofia do Não ” -“O Novo Espirito Científico” e-“A Poética do Espaço”. Abril Cultural, 1974.


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