A Homeopatia frente a Epistemologia II- CAPÍTULO I

O PARADIGMA DA INTEGRALIZAÇÃO DO PENSAR

CAPÍTULO I – O PARADIGMA DA INTEGRALIZAÇÃO DO PENSAR
 
Tao gera um.
 
Um gera dois.
 
Dois geram três.
 
Três geram as 10 mil coisas.
 
As 10 mil coisas geram o elemento da escuridão fora e o elemento da claridade dentro.
 
Tao-te king, XLII

 
I- O CONCEITO CIENTIFICO: A IDÉIA QUE EVOLUI COMO CENTRO ORGÂNICO DO SER RACIONAL
 
Após a evolução que se estabeleceu no campo das ciências naturais com o esclarecimento das formações químicas das diversas moléculas orgânicas ou inorgânicas, suas forças de interação e atração.
 
Após a desestruturação da matéria pela física quântica, a teoria da relatividade e a era nuclear, que desenvolveram e esclareceram a estrutura do núcleo do átomo, redescobrindo a eternidade e a intemporalidade da matéria, através de suas forças subatômicas, vemos-nos tentado a tecer uma teoria unificadora do Universo, numa só força: a grande força gravitacional. 

Após a evolução do pensamento humano, desde a descoberta do subconsciente imaterial e atemporal de Freud e a sua interação com o fator social até o inconsciente coletivo de Jung, que redescobre no simbolismo dos sonhos, as manifestações do substrato místico da religião, como consciência; e ainda agora com preservadora da sanidade da consciência; e ainda agora com a evolução da metodologia científica atual, que procura
unificar os universos das ciências naturais,dentro de um no espírito científico, para parafrasear Bachelard (1), “um estado de surpresa efetiva perante as sugestões do pensamento teórico” ou ainda Juvet (2): “é na surpresa criada por uma nova imagem ou por uma nova associação de imagens, que é preciso ver o mais importante elemento do progresso das ciências físicas, uma vez que é o espanto que exita a lógica, sempre bastante fria, e que a obriga a estabelecer novas coordenações, mas a causa própria desse progresso, a razão mesma da surpresa, há que procurá-la no interior dos campos de forças criadas na imaginação pelas novas associações de imagens, cuja potência é a medida da felicidade do sábio que soube reuni-las.”
 
É pois, com esta nova concepção científica que nos investiremos numa explicação da lógica do fenômeno biológico que evoluiu no planeta Terra: a mente.
 
Não será, então, ela o verdadeiro lugar da evolução humana, o rebento terminal do impulso vital? E para compreender melhor este impulso vital, necessário se faz preparar o espírito para receber a ideia quântica, o que só pode fazer-se, como afirma Bachelard (1), organizando sistematicamente o alargamento do espírito científico.
 
O conceito científico, seria pois, uma ideia que evoluiu como centro orgânico do ser racional; e para entendermos este ser racional dentro de uma ideia evolutiva que concebeu este conceito científico, necessário uma retomada aos conceitos filosóficos gregos.
 
Farei pois, uma digressão filosófica retomando alguns pontos da estrutura do pensar humano, tecendo algumas linhas de integração entre o pensamento oriental e o pensamento ocidental que possa dar base filogenética ao pensar integral, paradigma do ser pensante atual dentro de uma nova concepção científica que explique a lógica do fenômeno biológico de base bio-psico-social em expansão e que evoluiu no planeta Terra, qual seja: a mente.

E será com este pensamento indutivo, dentro de uma lógica eminentemente homeopática ou não-aristotélica, em bases na física quântica, que proponho aqui, soletrar uma concepção unificadora vitalista que reintegre o pensamento cientifico atual.

E ainda como dominar uma nova forma de pensar, o pensar integral, utilizando todo o conhecimento científico que marcou a época passada, sem se escravizar a este mesmo conhecimento, e ao mesmo tempo utilizando-o para promover a liberdade do novo pensar-sendo.

 
(1) BACHELARD, Gaston:- “Le Nouvel Esprit scientifique”. Presses universitaires de France Paris, 1934.
 
(2) JUVET “La structure des nouvelles théories physiques”. 1933, cit. in BACHELARD, Gaston:- “Le Nouvel Esprit scientifique”. Presses universitaires de France Paris, 1934.
 

II- ” PHYSIS”: A IDEIA QUE DEU BASE FILOGENÉTICA AO SER NA ANTIGUIDADE
 
1) Pensamento pré socrático e medicina

Considerar teoricamente a natureza mediante a razão é arte. Ao nascer as ciências como particularização do tema filosófico, a medicina foi a primeira arte constituída autonomamente no globo intelectual das disciplinas desgarradas da filosofia natural. E certo, pois, de que a ideia de natureza que o médico grego tem há que se inscrever-se dentro do perfil da natureza na física pré socrática. Não poderíamos compreender como a medicina foi convertida em ciência, em arte, desgajando-se de sua relação histórica e nexo de dependência com a fisiologia presocrática (3)
 
“Physis” é a palavra chave para compreender o enfrentamento filosófico do homem grego com o mundo, Platão chamou a filosofia uma “perì physeos história”, e Aristóteles designou aos filósofos mais antigos simplesmente como “physikoi” ou “physiológoi”, e a seu pensamento, como “physiologia”, como um “logos” sobre a “physis” ou natureza. Nos textos filosóficos mais antigos “physis” indica, as vezes, a peculiaridade de uma coisa que nasce e se desenvolve (4).
 
Parmênides fala da “physis” do ar e da lua. Heráclito, da “physis” do dia. Heródoto escreve da “physis” do Nilo, do crocodilo ou de determinada serpente. Quando um filósofo jonio se pergunta por ela, quer dizer “origem, princípio” em sentido temporal; mas também, consistência e fundamento. Refere-se, pois, à realidade primária que subsiste como fundo permanente de todo o existente e, também, do eixo de onde se extrai, de uma fonte e origem a partir do qual todas as coisas se desenvolvem, na rota de seu nascer e perecer, sua união e separação, sempre reiteradas.

 Nesse processo, ao mostrar-se das coisas, o filósofo quer separar o distintivo de sua “physis”. O matiz (nuança) do engano ou erro da terminologia grega não se põe na “phaínesthai” (mostrar-se) das coisas que se manifestam, mas atinente ao sujeito da percepção (“dokeîn”); pois como a natureza ama ocultar-se (Heráclito), será negócio próprio do filósofo o dar razão a “physis”.
 
A definição aristotélica da filosofia como ciência dos primeiros fundamentos ou causas responde a esta caracterização da filosofia grega mais antiga como desdobramento da “physis”. Aqueles fundamentos últimos, primeiros ou primeiríssimos, ditos princípios em sentido radical, fazem da multiplicidade aparente das coisas um conjunto solidário e comunitário, cujo nome é também “physis”.

Para Empédocles, só os elementos são em si, a “physis” de uma coisa vem determinada pela natureza dos elementos que nela se mesclam, por sua proporção numérica e pelo modo e forma da união.

Aristóteles fala, a este respeito, do “lógos tês míxeos”. Esta formulação não é muito importante para compreender a pré-história e o passado filosófico da relação que a medicina hipocrática estabelecerá entre “physis” e “dynámeis”, “forças”, sem falar em elementos mas em qualidades. O importante é saber o que preocupa Empédocles é a natureza das coisas em geral, assim como o médico fala da natureza do homem, a “physis” do corpo humano.
 
(3) MARIAS, Julián. História da Filosofia, 8° edPorto, Edições Sousa e Almeida Ltda, 1987
 
(4) ENTRALGO, Pedro Lain. Historia Universal de la Medicina, 1° ed., Barcelona, 1972, Salvat Editores, vol 2.
 

2) Natureza como norma

O conceito médico da natureza está tecido de vários elos diferentes e tem distintos reflexos semânticos. Poderíamos classificá-lo como conceito normativo da natureza, aplicado tanto à constituição do corpo humano ou de suas partes quanto à Natureza em geral. O médico descobre na “physis” o “ reino da verdade”, o filósofo vê nela o“ reino da norma”. A enfermidade é um desvio da norma, e a cura um retorno à natureza. Os textos sobre operações cirúrgicas não é infrequente a ideia de que o membro operado tenha sarado “obrigado por sua justa natureza”, e são freqüentes os grifos “necessidade da natureza” e “natureza justa”. O cirurgião “volta à natureza”, a operação é uma “manipulação justa”. A ideia de que a natureza está dominada pela força de um “lógos” procede de Heráclito(5).
 
Retornamos à consideração finalista da natureza e da doutrina de uma arte imitadora da natureza, que encontramos em Platão e Aristóteles. E certo que a medicina científica grega deve muito a Demócrito – que era somente um “physikós”, mas um pensador preocupado com toda classe de problemas científicos ” forma a ponte espiritual entre filosofia jonia e a medicina hipocrática” e que “a literatura hipocrática em seu conjunto é uma realização da exigência instada pela filosofia atomista de uma investigação radicalmente causal da natureza”(6).

Toda a doutrina sobre a “physis” que encontramos em ” Sobre os ares, águas e lugares” pode vir de Demócrito. A filosofia atomística posterior a Demócrito se revelou em medicina, muitíssimo menos fértil que a teológica. Em rigor o único médico que chegou as suas últimas conseqüências da especulação mecânico-atomista em medicina foi Asclepíades de Bitínia (séc. I a.c.), que negava explicitamente a existência da alma e dava uma visão coerente da patologia a partir de uma teoria corpuscular tomada de Epicuro. A orientação puramente empírica em medicina não nasceu do atomismo, sim do escepticismo. O praticismo conduz inevitavelmente ao escepticismo filosófico. E Herófilo parece ter duvidado da possibilidade de um conhecimento da natureza. Em todo caso, seu discípulo Filino de Cos era um empírico escéptico. Ao usar de uma pura praxes, que não crê na investigação das causas, a medicina grega alcança um extremo que, desde o ponto de vista teórico, havia de deixar levar ao seu contrário.

A filosofia grega tinha posto “o divino” no mundo; e uma ambiguidade própria do pensamento antigo – ” natura sive deus”- que durará até o dia em que o Cristianismo, retirando do Universo seus atributos divinos, os concentra exclusivamente na realidade pessoal de Deus; ou no dizer de Jaeger, da unidade da concepção espiritual de Deus e o rela deciframento racional do Ser
 
(5) ENTRALGO, Pedro Lain. Historia Universal de la Medicina, 1° ed., Barcelona, 1972, Salvat Editores, vol 2.

(6) (W. Nestle hermes 73193836 Cf. também C. Sandulescu: Studif Clasics 1, 1959, 17-30) cit, em ENTRALGO, Pedro Lain. Historia Universal de la Medicina, led, Barcelona, 1972, Salvat Editores, vol 2.
 
 

3) Ser e pensar na filosofia antiga: da “physiologia” dos pensadores pré socráticos a fisiologia dos médicos

A filosofia na história do homem confunde-se com a origem do pensar continuo que fez fluir uma ordem inteligível no mundo, uma sequência de compreensão temporal localizada no espaço de manifestações culturais que fizeram a história deste mundo.
 
Cabe pois, aqui, salientar, o momento de divisão entre a filosofia oriental chinesa, indiana e a filosofia ocidental: ou o pensamento descontinuo do homem antigo e o início do pensar continuo ou o filosofar da cultura grega.
 
Esta transição retratará pois, o tema capital da história da filosofia grega que tenta resolver porque o homem, ao chegar a certo nível da sua história, se viu filosofando.
 
Os primeiros pensadores, arquitetam uma física com método filosófico, cujo tema é a natureza, porisso chamados de físicos por Aristóteles, se aproximavam com frequência das afirmações concretas dos mais velhos pensadores chineses ou indianos; mas a diferença capital está em que, depois dos pré socráticos, aparece Sócrates, enquanto que à “balbuciante especulação oriental não se seguiu uma plenitude filosófica no sentido que esta palavra tomou no Ocidente.
 
Esta é a razão da diferença radical com que se nos apresenta o pensamento inicial dos helenos e dos orientais (7 )aos pressupostos da filosofia grega, realça-se a diferença do pensamento to oriental em relação ao ocidental mas coloca um nível de similitude e aproximação entre os primeiros pensadores que arquitetam uma física com método filosófico, cujo tema é a natureza, e que não difere muito da forma com que o físico teórico contemporâneo observa a natureza quântica de um problema qualquer e associa-se a um método filosófico.

Enquanto o filósofo pré socrático pretende dizer o que a natureza é, o físico teórico tenta explicar o que a natureza deixou de ser com a desintegração da matéria pela fissão nuclear. Com isto, a relação observador e coisa observada deixou de existir ou melhor no não-existir restou o campo teórico do físico que continuou pensando; retomando o movimento inicial do pensar através do ente de Parménides e sua ontologia. 

Cabe pois, realçar o ponto de similitude que integre o pensamento oriental e ocidental, esquecido pelos historiadores, onde sempre existiu uma forma integral de se pensar que é atemporal e desindiciar a mente do processo histórico materialista que a escravizou a partir dos atomistas sensualistas, de Demócrito a Protágoras que fizeram por obscurecer o ente parmeniano.
 
(7) MARIAS, Julián. História da Filosofia, 8°ed. Porto, Edições Sousa e Almeida Ltda, 1987,
 

3.1-O paralelismo ser/pensar em Parménides
 
Quando a deusa saúda Parménides, no poema “Sobre a Natureza”e diz-lhe que é preciso que aprenda a conhecer todas as coisas, “tanto o coração inquebrantável da verdade bem definida, como as opiniões dos mortais, que não se revestem de verdadeira certeza”, tendo que tomar apenas uma via em consideração, uma vez que o que não é não se pode conhecer ou exprimir; colocou a estreita relação do ente e da mente ou espírito na verdade. Segue-se, depois, o que poderíamos chamar a ontologia de Parménides, isto é, a explicação dos atributos do ente que ele acaba de descobrir.
 
A via da verdade bem definida, do “que é”, do ente, do ser como objeto, tem um método do pensamento, o pensar; as coisas, enquanto são, estão presentes no pensamento, e o ente é presente, está presente na mente. Além disto, é uno e imóvel, homogêneo e indivisível, sendo pleno, sem vazios. Por idêntica razão é indestrutível e incriado. O contrário suporia um não ser, o que é impossível. Resta-nos, pois, a opinião dos mortais que move-se dentro da esfera da verdade, e por isso pode ser verdade e erro. A verdade é que poderá decidir o que é verdade e o que é erro. Poderíamos comparar o ente de Parménides no paralelismo ser/pensar a um moto continuo e dinâmico que é o próprio pensar atemporal criativo dentro do que se chama eternidade: onde os campos de forças criados pela imaginação, pela aproximação de duas imagens diferentes resultam numa idéia que evolui sempre presente.
 
Com Parménides, pois, a filosofia que era física passa a ser ontologia. Uma ontologia do ente cósmico, físico. E ocorre precisamente que, como o ente é imóvel, a física é impossível do ponto de vista do ser e portanto, da filosofia. A física é a ciência da natureza, e a natureza é o princípio do movimento das coisas naturais. Se o movimento não é, não é possível a física como ciência filosófica da natureza. É este o grave problema que se vai debater em todos os pré socráticos posteriores e que só em Aristóteles achará solução,quando constrói uma ideia de ser distinta de Parménides (8).
 
Estabele-se a dialética de Zenão e inicia o rompimento da forma do pensar integral ou ser/pensar que possibilita a antinomia do ser e do não ser, da unidade e da pluralidade e também a do movimento do princípio ao fim, onde surge a noção de tempo, onde o TAO que era uno passa a ser múltiplo. O ser permanece separado de todo o movimento e de toda a multiplicidade com Heráclito, que fala do mundo, do cosmos, e Parmênides também reconhecia o movimento e a pluralidade: o que afirmava é que isto nada tinha a ver com o ente.

(8) ENTRALGO, Pedro Lain. Historia Universal de la Medicina, 1° ed., Barcelona, 1972, Salvat Editores, vol 2.
 
3.2- O ser imóvel e a mutante multiplicidade das coisas de Empédocles
 
A questão central de Empédocles: o problema do ser das coisas. É necessário harmonizar o ser imóvel com a cambiante multiplicidade das coisas através dos quatro elementos: o ar, o fogo, a água e a terra, constituintes das raízes de todas as coisas. Estes elementos remontam os quatro elementos tradicionais, as raízes eternas de Parmênides que era uma esfera homogênea e que não mudava; enquanto que aqui é uma esfera mas não homogênea; é uma mistura. Todos os corpos compõe-se da agregação de substâncias elementares. Para Anaxágoras não há quatro elementos, mas um número infinito deles. Há de tudo em todas as coisas. Chama homeomerias às partes homogêneas, partículas pequeníssimas de que são feitas as coisas. Se considerarmos uma coisa qual quer e a dividirmos, nunca chegaremos – afirma Anaxágoras – as raízes de Empédocles(9). O que há são as homeomerias mesmo na parte mais pequena de cada coisa há pequeníssima de todas as demais. Chama a isto panspermia, existir em tudo a semente de todas as coisas.


Como se explica, então, a formação das diversas coisas? Pela união e separação das homeomerias. E um passo mais nesta divisão do ente de Parménides, a que vamos assistindo: o ente é, primeiramente, posto em relação com o fogo que se move e muda (Heráclito); depois divide-se nas quatro raízes de Empédocles, para explicar o mundo e o movimento partindo delas. Agora é Anaxágoras que o fragmenta nas homeomerias. E não será esta a última etapa. as propriedades do ente conservam-se, e o movimento explica se pela união e pela separação, descobre a importância da forma. A causa do movimento é o noûs (inteligência), uma matéria mais subtil que as demais, mas não espiritual.

A noção de espírito é alheia ao pensamento desta época. No noûs encontram-se as demais coisas, mas algumas destas – as animadas – têm noûs. este, portanto carece de mistura. E o princípio dirigente do Universo. Platão e Aristóteles davam imenso valor à doutrina do noûs, que prometia ser a explicação da origem do mundo. O noûs anaxágoras, separado da matéria, é, contudo, como uma inteligência impessoal, embora ordenadora dos movimentos cósmicos.

O conhecimento, segundo Anaxagoras, tem certos limites porque as homemerias não são acessíveis aos senti dos. A sua idéia da percepção é contrária a de Empédocles : as coisas conhecem-se pelos seus contrários. São as duas teses opostas que se contrapõem nesta época.

Hipócrates e Demócrito eram contemporâneos do grande moralista Sócrates (470-399) que considerava sua missão cuidar da alma de seus concidadãos e ensinar-lhes virtudes e bondade (10). A filosofia de Demócrito constitui a primeira tentativa formal para um materialismo. Surge aqui a interpretação material do ente. Neste momento o homem é um pequeno Kósmos, um microcosmos segundo a inspiração do pai do atomismo, Leucipo, que influencia Demócrito ao descrever o Universo como um grande cosmos; Demócrito faz objeto de sua especulação o homem que deriva os movimentos subjetivos a partir dos movimentos dos átomos (os átomos ígneos que são os próprios da alma), sua filosofia chegou a ter um minucioso estudo de antropologia. Suas concepções mecanicistas são diferentes daquelas mediante as quais Anaxagoras explicava a ordenação do mundo, de acordo com um plano preconcebido, pela inteligência (noûs).

Anaxágoras abre o caminho da concepção teleológica da natureza, ao que não emprega todavia como princípio consequente na explicação dos fenômenos particulares. Diógenes de Apolonia, repete a teoria de Anaxímenes sobre o ar que encontra no mundo uma disposição intencionada, efeitos obra de um Espírito (pneuma) pensante, o ar que “pilota todas as coisas”. Para demonstrar o domínio de um espírito inteligente te sobre a natureza insiste Diógenes sobre a intencionalidade deliberada que parece descobrir na estrutura do corpo humano. É uma interpretação técnológica do corpo.

(9) (10) ENTRALGO, Pedro Lain. Historia Universal de la Medicina, 1° ed., Barcelona, 1972, Salvat Editores, vol 2.

3.3 – Hipócrates
 
Antes de Alcmeón e de Hipócrates, a medicina havia sido em todo o planeta uma mescla de empirismo e magia, com maior ou menor predomínio de uma ou de outra, e mais ou menos sistematicamente trabalhada com a visão religiosa do mundo próprio do povo em questão. Antes pois, da nosologia “fisiológica” de Alcmeón de Crotona, a interpretação grega da enfermidade foi simples ” nosologia”, visão da origem e consistência real da doença dentro de uma concepção mítica acerca da origem do mundo e das coisas.
 
Alcmeón foi o iniciador da medicina “fisiológica”; Hipócrates, seu verdadeiro fundador. O primeiro e mais importantes dos conceitos da medicina hipocrática é o de “physis” ou natureza. Os pensadores pré-socráticos, desde Tales de Mileto até Demócrito, tem ensinado que a “physis”é o fundo universal de onde nasce tudo quanto há. A “physis”
é o princípio radical, a substância primigenia, original fundamental da realidade visível e invisível, a fonte inesgotável de todas as coisas; portanto, “o divino” porque “para as antigas religiões politeístas, ser divino significa ser imortal, com uma imortalidade que se deriva de um inesgotável caudal de vitalidade”(Zubiri) (11).
 
A visão hipocrática da natureza (“physis”)”(11) se expressa no seguinte:
 
1- Universalidade e individualidade. Todas as coisas tem sua “physis” própria: os astros, as partes do mundo, os ventos, as águas, os alimentos, os medicamentos, o homem enquanto tal – a “physis humana, o corpo, a alma, as distintas partes do corpo, cada um dos indivíduos os humanos, os diversos modos típicos de ser homem, as enfermidades, os animais. Todas as coisas, por outra parte, compõe, juntando-se entre si, a “physis” universal, a Natureza. Por isso o autor do livro I das Epidemias distingue entre a comum ‘physis’ de todas as coisas” e “a ‘physis’ própria de cada coisa” (II, 670)

2- Principalidade. A “physis” é o “princípio”, não só de tudo que há, sim de cada uma das coisas que existem.” Não é possível conhecer a natureza das enfermidades, objeto dos descobrimentos da arte, se não se conhece a Natureza em sua divisão, segundo o princípio deste o qual ela se diferença”. Principio da realidade e, como conseqüência, princípio do conhecimento: “a ‘physis’ do corpo é o princípio da razão em medicina”, se afirma em ” Sobre os lugares do homem” (VI,278). Esta principalidade da ‘physis’ não tem somente caráter fundamentante, possui também caráter originante: ‘physis’ é um substantivo procedente do verbo ‘phyein’, que significa nascer, brotar ou crescer. Assim se explica que “Sobre a natureza da criança” seja antes de tudo um tratado de embriologia.

3- Harmonia. Em sua aparência e sua dinâmica, a ‘physis’ é harmoniosa: tem harmonia e a produz. E portanto, “táxis” ( ordem) e se realiza como kosmos” ( equilíbrio, bela ordem).” Os deuses hão disposto em boa ordem( em “kosmos”) a natureza de todas as coisas”, disse “Sobre a dieta” (VI, 486). Um útero são é um útero em “kosmos”(VIII, 326).

4- Racionalidade. A Natureza é em si mesma “razoável”, possui em seu seio um secreto “logos”. Por isto pode haver uma” physiologia”, uma ciência a qual é o “lógos” do homem, a razão humana, diz retamente o “logos” da Natureza e descobre o que há nela de racional.

5- Divindade. A ‘physis’ é em si mesma “o divino”. “A divina força” da Natureza que se manifesta por seus movimentos. Quando o autor de “Ares, águas e lugares” afirma que nenhuma enfermidade é mais divina ou mais humana que as demais, porque todas são semelhantes entre si e todas são divinas (II, 76), o que quer todas as enfermidades são igualmente divinas, porque a realidade de todas elas consiste em uma desordem da “physis” (11,80). O caráter divino da “physis” manifesta-se principalmente no que nela em seus movimentos-é necessidade inexorável, “fatum superior a todas as possibilidades do homem: essa “divina força” da Natureza” pelo qual acolhe tanto o se quer como que não se quer, segundo a vigorosa expressão de “Sobre dieta”(VI, 478). Multiplicidade de fenômenos naturais, desde os meteoros até a gênese ou o caráter mortal de tantas enfermidades, acontecem por necessidade forçosa, e frente a ela nada poderia a arte do homem. A medicina, em suma, é a arte de dominar o que na Natureza é o azar, quando este se manifesta na forma de enfermidade. Por isso o autor de “Sobre a arte” pode decidir que para o bom médico o azar não existe (12).


(11) (12) ENTRALGO, Pedro Lain. Historia Universal de la Medicina, 1° ed., Barcelona, 1972, Salvat Editores, vol 2.
 
 
III- DA” PHYSIS” AO CONCEITO CIENTIFICO: UMA IDÉIA FENOMENOLÓGICA AO ESPÍRITO RACIONAL

A necessidade de uma teoria que reintegra o pensamento cartesiano e o pensamento intuitivo ou primitivo, passa-se pela aproximação entre mente como conceito científico atual e a “physis” como conceito primitivo daquilo que é, mas com uma formação epistemológica daquilo que evoluiu para o estar sendo ou em vias de formação, como é o pensamento científico atual.
 
Esta globalização ou universalização dos princípios como necessidade básica de se atingir uma liberdade maior no pensar humano, esta essência do pensar e sua reintegração de valores, (restruturação, o de valores arcaicos estáticos em valores dinâmicos evolutivos através de uma visão hipocrática da natureza expressa nesta universalidade e individualidade, na principiabilidade, na harmonia, na racionalidade e na divindade reintegrando em conceitos fenomenológicos ao espírito racional para dar aparição ao jeito (ou à mente) nas formas acabadas das categorias do entendimento, no tempo e no espaço, no “aqui” e no “agora” a certeza sensível, aparição que mostra a dissolução da verdade do objeto na certeza com que o sujeito procura fixá-la.
 
E a partir daí, o movimento dialético da Fenomenologia prossegue como aprofundamento dessa situação histórico-dialética de um sujeito que é fenômeno para si mesmo no próprio ato em que constrói o saber de um objeto que aparece no horizonte de suas experiências para estar sendo ou existindo. Por isso, Hegel (13) transfere para o próprio coração do sujeito – para o seu saber a condição de fenômeno o que Kant cingir à esfera do objeto. Pode ser apresentada como processo de “formação” do sujeito para a ciência, que formará a cultura do Ocidente.
 
IV – O CONCEITO CIENTÍFICO E A “PHYSIS” – PARADIGMA PARA INTEGRALIZAÇÃO DO PENSAR

1 – Conhecimento e governo da “physis”
 

O médico hipocrático deve conhecer tecnicamente alteração da “physis” de seus enfermos e ajudar, também tecnicamente, a que aquela recobre seu primitivo estado de saúde. Uma arte (“tékhne”) baseado no conhecimento científico (“epistémé”) e um conhecimento científico ordenando a arte; tal é a essência da atitude do médico hipocrático frente a “physis”. O qual emprega esta arte que requer ora o emprego dos sentidos, da inteligência e das mãos. Estude nos sucessivamente o resultado desta tríplice atividade
 
1.1- A parte consagrada ao diagnóstico estudaremos como os sentidos do médico se aplica à exploração técnica do corpo humano, pelo momento, limitamos-nos a contemplar como sua mente concebe a razão do ser e o resultado desta exploração sensorial.

O autor de ‘Sobre a medicina antiga’ proclama necessidade que o médico tem, se quer que seu saber seja exato, de um “elétron”, de um “canon” ou “critério de certeza” e afirma que esse “métron” não pode ser um peso ou um número, sim a “sensação do corpo” ou melhor a sensação que o médico obtém examinando com seus sentidos o corpo do enfermo (14).


1.2- Aplica certa elaboração intelectual da experiência sensorial, pois quando o inteligência do médico quer passar da mera ordenação descritiva à verdadeira intelecção da realidade e fazer-se verdadeira razão, então tem que fazer genuína atividade raciocinada da “Physis”, e operar com conceitos que inelutavelmente exige a explicação racional da “physis”, a verdadeira “physiologia”. Cinco são os principais, entre os que, tanto os “fisiólogos” como os autores hipocráticos manejam: três deles se expressam vinculados “virtude”, “potência” e “propriedade”(“dynamis”), o de “causa” (“aitía”, “próphasis”) e de “movimento”(“ kinésis”); outros meramente citados, o de “elemento”(“stoikheion”) e o de “contraposição dual”(“enantiósis”).

De uma maneira pré-científica, “dynamis” é a potência ou capacidade de uma coisa para mostrar o que ela é: relinchar e esverdear, por exemplo, são “dynámeis” do cavalo e da erva. É possível estabelecer uma teoria científica e geral da “dynamis”?

Como para todos os gregos, para o médico hipocrático o homem foi um retorno vivente da “physis” universal, um “phyon”; uma realidade, portanto, que tem essencialmente que ver com todas as que integram a natureza, em especial com o resto dos animais e com as plantas, e caracterizada por sua capacidade de pensar, falar e governar com suas mãos o mundo em torno.

2. Conhecimento e governo da filosofia contemporânea

Enquanto o médico contemporâneo parte da noção do conceito científico para elaborar uma teoria de funcionamento do corpo como uma máquina regida por leis físicas newtonianas, concebendo a doença como um ente material que irrompe o equilíbrio mecânico inercial, projeta numa concepção materialista de doença, desviando interiorizando na dissecção do cadáver a busca inacabada das causas das doenças. Vai perdendo com a tecnologia da diagnose invasiva a percepção dinâmica do todo biopsicossocial e espiritual da “physis” hipocrática.

Apesar da grande evolução tecnológica para lidar com as partes do corpo, os pedaços anatomopatológicos que certificam as teorias da doença, o médico contemporâneo entende cada vez mais das partes e cada vez menos do todo; o método reducionista desinsere o microcosmo do macrocosmo, e o é desintegrado e ao mesmo tempo desinserido da natureza que um dia o estruturou através da evolução filogenética.
 
O que era arte de apreciação da saúde passa a ser uma obsessão desenfreada pela busca da doença, e o observador passa-se a confundir com a coisa observada das máquinas da diagnose exacerbada. O emprego dos sentidos, da inteligência e das mãos passa a ser reflexo do pensar reducionista e conseqüentemente da lógica compartimentada e desintegrada. Resulta então:

1- 0 peso e o número passam a substituir a “sensação do corpo” ou melhor a sensação que o médico obtém examinado com seus sentidos o corpo do enfermo.

2 – Aplica certa elaboração intelectual desindexada da experiência sensorial, rompe o conhecimento apriori e o empírico e a inteligência do médico passa a mera ordenação descritiva das doenças, impossibilitando a verdadeira intelecção da realidade e consequentemente fazer-se verdadeira razão. A filosofia contemporânea passa a operar com conceitos e métodos que inelutavelmente exige a aplicação racional sem integrar ou vincular estes conceitos, buscando apenas normatizar subcampos do conhecimento e classificar sub especialidades em detrimento da compreensão dinâmica deste campo do conhecimento.

3 – Paradigmas da integralização do pensar

Urge remodelar a forma de análise lógica do pensamento científico fora do raciocínio dialético, não mais sobre uma ótica mecanicista newtoniana, mas sobre bases mais dinâmicas, quais sejam as da física quântica e a teoria da relatividade onde o cientista ou o médico percebe não mais o caos mas a harmonia da “physis” de Hipócrates ou da força vital de Hahnemann.

 
Para isto, ele deve pensar dentro de uma concepção unificadora, de uma unidade, que coloca a ciência em condições de elevar-se a sistema filosófico, dando-nos uma concepção de Vida de forma a fundir os dois extremos: intuição e razão; revelação e ciência.

As contribuições de Heisenberg à teoria quântica, implicam claramente que o ideal clássico de objetividade científica não pode mais ser sustentado. Passamos por uma crise que se impõe uma profunda reflexão epistemológica sobre os pressupostos desta mesma objetividade que destruiu o pressuposto objeto analisado para deixar como resultado uma lacuna de métodos anteriores, que necessariamente deverão ser ultrapassados pela invenção de novos métodos vinculados à sensibilidade do observador, seu entendi mento, sua faculdade de julgar e sua razão (15).

Assim, a Física moderna também está desafiando o mito de uma ciência livre de valores. Os padrões que os cientistas observam na natureza estão intimamente relacionados com os padrões das suas mentes, com os seus conceitos, pensamentos e valores. Por isso, os resultados científicos que obtêm e as aplicações tecnológicas que investigam estarão condicionados pela estrutura de suas mentes.

Os cientistas, portanto, são responsáveis, não apenas intelectual mas moralmente, por suas pesquisas.

Efetivamente, crê Bachelard, que a Relatividade efetuara já a conquista de um pensamento eminentemente indutivo e que os êxitos pedagógicos na demonstração dedutiva de certas conseqüências relativistas nada tira do caráter genial e inesperado da Revolução Einsteiniana. Este pensamento à procura do objeto, que procura ocasiões dialéticas para sair de si próprio, este pensamento em vias de objetivação para um pensamento que integralizado em si mesmo, sem vínculos com o objeto observado, que abstraia em si a essência do que é, e compreenda somente; e não se perca em conjunturas e teorias mais subtis e mais aparentemente completas que tentam esclarecer esta crise; crise es essencialmente de sensibilidade e de capacidades perceptivas.

Se vivemos uma mudança de paradigmas como nos coloca Kuhn (16) estamos adquirindo também uma forma de integralização do pensar que nos possibilitará compreender dinamicamente a interação observador e coisa observada.

A interação entre o observador e a coisa observada, integralizada numa forma dinâmica de pensar e perceber o Universo como um todo em si contido, onde na definição de Bertalanffy (17) este mesmo universo interativo ora funcione como um sistema aberto quando se relacione consigo mesmo (o observador) e o seu eterno vir a ser; e ora como sistema fechado ao relacionar-se com a parte ( a coisa observada) e o resultado do que é, sendo. Assim, poderíamos pro duzir um moto contínuo e dinâmico que é o próprio pensar atemporal criativo dentro do que se chama eternidade: onde os campos de forças criados pela imaginação, pela aproximação de duas imagens diferentes resultam numa idéia que evolui, sendo um centro orgânico que se aglomera, já que um cérebro estático não poderia inferir.

A lógica reducionista da metodologia cientifica atual tem se mantido em quase todo campo do conhecimento cientifico. Desde a física clássica com a desintegração do átomo até a medicina na dissecção do corpo, a lógica da decomposição que reduz o Universo em partes para tecer uma teoria absurdo do caos que explique na sua ignorância a harmonia funcional do Universo como um todo.

Aonde estaria pois, o erro epistemológico que deixou a lógica se perder no método e se confundir com o objeto observado, sem dar ao observador a sua importância como sujeito da historia do conhecimento humano? Acredito que ao interpormos o conhecimento cientifico atual e a homeopatia reconstruindo sua epistêmico poderemos clarificar a historia da lógica do ser vivente numa nova concepção teórica do vitalismo hahnemanniano.

(13) HEGEL, G.W.F. Fenomenologia do Espírito, Petrópolis, RJ,Editora Vozes, 1992
(14) (KÜhn, j.H.: System- und Methodenprobleme im Corpus Hippocraticum. Wiesbaden,1956) cit. in ENTRALGO, Pedro Lain. Historia Universal de la Medicina, 1° ed., Barcelona, 1972, Salvat Editores, vol 2.
(15) KANT, Emmanuel: – “Critique de la faculté de juger suivi de Idée d’une histoire universelle au point de vue cosmopolitique et de Réponse à la question: Qu’ est-ce que les lumières?”. Editions Gallimard, 1985; 561 p.gs.; 1 vol.
(16) KUHN, Thomas S.: – “A Estrutura das Revoluções Científicas”. Editora Perspectiva va, 2° Edição, 1978; SP.
(17) BERTALANFFY, Ludwing Von: – “Teoria Geral dos Sistemas”. Editora Vozes Ltda 2° edição, Petrópolis, 1975.
 

V – A LÓGICA DA RAZÃO: A IDEIA DE MASSA QUE EVOLUI E SE INTEGRA A IDEIA DE ENERGIA QUÂNTICA
 
Para Bachelard (18) o sentido da evolução filosófica dos conceitos científicos atravessa todas as seguintes doutrinas na ordem: animismo, realismo, positivismo, racionalismo, complexo e racionalismo dialético, tanto que o conhecimento científico ordena a própria filosofia, fornece do um princípio para a classificação das filosofias e para o estudo do progresso da razão.
 
Através pois, do conceito de massa, já integrado no racionalismo complexo da Relatividade, Bachelard” encontrou recentemente na mecânica de Dirac uma dialética clara e curiosa, para analisar uma perspectiva filosófica completa em cinco níveis sobre os quais se estabelece em filosofias científicas diferentes, ordenadas e progressivas.
 
As formas de apreciação da noção de massa: do desejo de comer interioriza-se em um conceito-obstáculo que bloqueia o conhecimento, não o resume. Por isso, antes de se com prometer um conhecimento objetivo qualquer, o objetivo deve ser psicanalisado, não só na generalidade como ao nível de to das as noções particulares, coloca ele, situando a filosofia dialética para além do racionalismo, como uma flexibilização do racionalismo, para denunciar formas conceituais imprecisas como a ideia de massa sob a forma primitiva.
 
O conceito de massa, conceito simples e positivo, está ligado à utilização de balança, onde o instrumento precede a teoria, corresponde um pensamento empírico, sólido, claro, positivo, imóvel. Pesar é pensar. Pensar é pensar. Um pensamento empírico associado a uma experiência simples recebe o nome do pensamento realista, que levam a condutas realistas; estas se instalam porque o teórico racionalista tem necessidade de ser compreendido por simples experimentadores, regressando consequentemente às origens animistas da linguagem, não teme o perigo de pensar simplificando, porque na sua vida comum, ele é efetivamente realista de forma que os valores racionais são tardios, raros, efêmeras – precários como todos os valores elevados, também no reino do espírito o joio corrompe o trigo, o realismo leva o melhor sobre o racionalismo. Mas como epistemólogo Bachelard estuda os fermentos do pensamento científico que devem detectar permanentemente o significado dinâmico da descoberta.

Com Newton, século XVII, o conceito de massa passa a ser definido como o quociente da força pela aceleração; ocorre um afastamento relativamente aos princípios fundamentais do realismo para se tornar uma relação claramente racional, dado que esta relação é perfeitamente analisada pelas leis racionais da aritmética, se passa com a mecânica de Newton, do seu aspecto estático para o seu aspecto dinâmico. Depois de Newton, ela é estudada num devir dos fenômenos, como coeficiente do devir. É a necessidade de compreender o devir que racionaliza o realismo do ser, e no sentido de complicação filosófica que se desenvolvem verdadeiramente os valores racionalistas que anteverão o ultra racionalismo. Dentro desta concepção de Bachelard, a razão não é de forma alguma uma faculdade de simplificação, esclarece enriquecendo-se no sentido de uma complexidade crescente. A mecânica se torna toda ela verdadeiramente racional e uma matemática especial associa-se à experiência e racionalização permitindo deduções formais, abre-se um campo de abstração indefinido.

A massa não é mais do que um instante da construção racional. Face ao fenômeno mecânico, a mecânica racional está exatamente na mesma relação que a geometria pura
à descrição fenomenal. A mecânica racional de Newton conquista rapidamente todas as funções de um a priori Kantiano, é uma doutrina científica já dotada de um caráter filósofo Kant. A metafísica de Kant instrui-se na mecânica de Newton. Reciprocamente, pode explicar-se a mecânica Newtoniana como uma informação racionalista. Ela satisfaz o espírito independentemente das verificações da experiência. Se a experiência viesse desmenti-la, suscitar-lhe correções, tornar-se-ia necessária uma modificação dos princípios espirituais. Um racionalismo alargado não se pode satisfazer com uma retificação parcial. Tudo aquilo que retifica a razão, reorganiza-a, conclui Bachelard(19).

Os átomos nocionais ou os a priori da filosofia métrica dos quais, o racionalismo Newtoniano escolheu como fundamentais foram: espaço absoluto, tempo absoluto e massa absoluta. Mas com a era da Relatividade, o racionalismo essencialmente fechado nas concepções Newtonianas e Kantianas, irá se abrir no interior da noção de massa caracterizada como um átomo nocional, que por sua vez pode decompor-se gerando o seguinte paradoxo metafísico: o elemento é complexo. E a noção de massa só é simples em primeira aproximação. Com efeito, a Relatividade descobre a massa, outrora definida como independente da velocidade de, como absoluta no tempo e no espaço, como base de um sistema de unidades absolutas é uma função complicada da velocidade. A massa de um objeto é, pois relativa ao deslocamento deste objeto. O repouso absoluto não tem significado. Também é falha de significado a noção de massa absoluta. É impossível escapar à Relatividade, tanto no que se refere à massa como no que se refere às determinações do espaço-tempo. Esta compilação interna da noção de massa é acompanhada de complicações sensíveis na utilização ex terna: a massa não se comporta da mesma maneira relativamente à aceleração tangencial e relativamente à aceleração
 normal. É, pois, impossível defini-la de uma forma tão simples como a fazia a dinâmica Newtoniana. Ainda mais uma complicação nocional: na física relativista, a massa já não é heterogênea é energia.

Numa noção particular, pois, o racionalismo se multiplica, se segmenta, se pluraliza. O elemento sobre o qual a razão trabalha será mais ou menos complexo de acordo com o grau de aproximação. O racionalismo tradicional é profundamente abalado por esta utilização múltipla das nações elementares. Ao multiplicar-se, o racionalismo torna-se condicional. E tocado pela relatividade uma organização é racional relativamente a um corpo de noções. Não existe razão absoluta. O racionalismo é fundamental, é diverso e vivo.

Só existe um meio de fazer avançar a ciência; é o de atacar a própria ciência já constituída, ou seja, mudar a sua constituição. O realismo é uma filosofia que nunca se compromete, ao passo que o racionalismo se compromete sempre e arrisca totalmente em cada experiência. A razão é uma atividade autônoma que tende a completar-se (20).

O racionalismo contemporâneo não se enriquece apenas por uma multiplicação íntima, por uma complicação das noções de base; anima-se também numa dialética de certo modo externa que o realismo é impotente para descrever e naturalmente, mais importante ainda inventar.

Bachelard parte da noção de massa na mecânica de Dirac, como elemento do ultra-racionalismo dialético como o quinto nível da filosofia dispersa para indicar um aspecto filosófico novo. Dirac levou mais longe o pluralismo da propagação. Empenhou-se em nada perder da funcionalidade do elementos mecânicos, em defender de qualquer degenerescência as diversas variáveis. Chegados a este ponto, é o cálculo que opera. As matrizes solidarizam dialéticamente os fenômenos propagados dando a cada um o para que lhes cabe, fixando exatamente a sua fase relativa. Em vez de melodia matemática que outrora acompanhava o trabalho do físico, é toda uma harmonia que romanceia matematicamente a propagação. Mais exatamente, é um quarteto que o matemático deve dirigir, na mecânica de Dirac para combinar as quatro funções associadas a qualquer propagação.

O cálculo fornece-nos esta noção juntamente com outras, com os momentos magnéticos e elétricos, com os spins, respeitando até o fim o sincretismo fundamental tão característico de um racionalismo completo. Mas eis a surpresa, eis a descoberta: No final do cálculo, a noção da massa é nos fornecida estranhamente dialetizadas. Nós tínhamos apenas necessidade de uma massa; o cálculo dá-nos duas, duas massas para um só objeto (21).

Uma destas massas resume perfeitamente tudo o que se sabia da massa nas quatro filosofias procedentes: realismo ingênuo, empirismo clara, racionalismo Newtoniano, racionalismo completo einsteniano. Mas a outra massa, dialética da primeira, é uma massa negativa. Trata-se de um conceito inadmissível nas quatro filosofias antecedentes. Por conseguinte, uma metade da mecânica de Dirac reencontra e continua a mecânica clássica e a mecânica relativista, a outra metade diverge uma noção fundamental; dá origem a algo de diferente. Suscita uma dialética externa, uma dialética que teria sido encontrada meditando sobre a essência do conceito de massa, aprofundando a noção Newtoniana e relativa de massa.

Entra então, a filosofia dialética do “porque não?” que é característica do novo espírito científico. Porque razão a massa não havia de ser negativa? Que modificação teórica essencial poderia legitimar uma massa negativa? Qual que, na sua propagação, se revelaria como uma massa negativa? Em suma, a teoria, insiste, não hesita, a preço de algumas modificações de base, em procurar a lições de um conceito inteiramente novo, sem raiz na realidade comum.

Deste modo, a realização leva melhor sobre a realidade. Esta primazia da realização desclassifica a realidade Um físico só conhece verdadeiramente uma realidade quando a realizou, quando deste modo é senhor do eterno recomeço das coisas e quando constitui nele um retorno eterno da razão. Aliás, coloca Bachelard, o ideal da realização é exigente: a teoria que realiza parcialmente deve realizar totalmente. Ela não pode ter razão apenas de uma forma fragmentária, a teoria é a verdadeira matemática que ainda não encontrou a sua realização completa. O cientista deve procurar esta realização completa. É preciso forçar a natureza a ir tão longe quanto o nosso espírito.

Bachelard coloca ainda, que apesar de o conceito de massa negativa não ter encontrado ainda a sua interpretação ção experimental, que coloca o exemplo de racionalidade dialética um tanto vago, insiste neste desconhecido preciso como o inverso do irracional vago, ao qual o realismo freqüentemente atribui um peso, uma função, uma realidade de. Poderá ser interpretada por um racionalismo aberto. O conceito de energia negativa apresenta-se, na mecânica de Dirac, exatamente da mesma forma que o conceito de massa negativa.
Qual o fenômeno que corresponderia ao conceito de massa negativa preparado pela mecânica de Dirac? Será a massa negativa o caráter que se deveria encontrar no processo de desmaterialização, ao passo que a massa positiva estaria ligada à matéria resultante de uma materialização?
Por outras palavras, estarão os processos de criação e destruição materiais – tão recentes para o espírito científico – em relação com as dialéticas profundas dos conceitos de base tais como as massas positivas e negativas, as energias positivas e negativas? Não existirá uma ligação entre a energia negativa e a massa negativa?
E nesta região do ultra-racionalismo dialético que sonha o espírito científico no dizer de Bachelard (23). E aqui, e não algures que nasce o sonho analógico, aquele que se aventura pensando, que pensa aventurando-se, que procura uma iluminação de pensamento através do pensamento, que encontra uma intuição súbita no além do pensamento instruído. O sonho ordinário trabalha no outro polo, na região da psicologia das profundidades, de acordo com as seduções da libido, as tentações do íntimo, as certezas vitais do realismo, a alegria da posse. Não se poderá conhecer a psicologia do espírito científico enquanto não se tiver distinguida estas duas espécies de sonho.
O sonho analógico é, segundo pensa Bachelard, essencialmente materializante. ele aspira a uma maior matematização, a funções matemáticas mais complexas, mais numerosas.
A arte poética da Física faz-se com números, com grupos, com spins, excluindo as distribuições monótonas, os quanta repetidos, sem nunca fixar aquilo que funciona. Qual o poeta que virá cantar este panpitagorismo, esta aritmética sintética que começa por dar a todo ser os seus quatro quanta, o seu número de quatro algarismos, como se o mais simples, o mais pobre, o mais abstrato dos eletrões tivesse já necessariamente mais de mil caras. Apesar de serem em número reduzido os elétrons num átomo de hélio ou de lítio, o seu número de identidade tem quatro algarismos: um pequeno número de elétrons é tão complicado como um regimento de soldados.
 
(18)(19)(20)(22)(23) BACHELARD, Gaston:- “A Filosofia do Não”. Abril Cultural,1974.
(21) BROGLIE, Louis de. L’eletron magnétique p.207 cit. em BACHELARD, Gaston: -“A Filosofia do Não “ -Abril Cultural, 1974.

 
 

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